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Gentrificação

Talvez desde aquele dia em que vi aquela foto minha, de pequena, no quarto recém retomado, que eu não me encontrava comigo. Tenho estado muito sozinha. Gosto de estar sozinha com meus livros e filmes e fotografias e canetas e folhas em branco. Não exatamente sozinha, como se vê. Ontem estive sozinha, como há meses não. Chovia e a janela estava aberta. Desliguei a tv, acostumei a vista ao escuro da noite e enxerguei a parede em branco à minha frente. Lembrei do poema que havia nela, escrito à tinta, à mão, pelos meus 15. “São demais os perigos desta vida para quem tem paixão…” Meu preferido. O único que sei de cor, Soneto de Orfeu. Naquela época meu quarto tinha paredes azuis.

Espelhos são boas companhias. Os descobri adolescente. Passava horas inerte frente ao espelho, olhar fixo no mais fundo que eu podia chegar dos meus olhos. Me descobria, me alcançava ali. Ontem, a que vi no espelho me assombrou. Quem era aquela? Soltei os cabelos, corrigi a postura, relaxei os ombros e no escuro fui tirando as camadas que me cobrem. Minhas camadas. Quem sou eu sem a fotógrafa? Quem sou eu sem a filha? Quem sou eu sem a neta? Quem sou eu sem a amiga distante? Quem sou eu sem a servidora? Quem sou eu sem a cicatriz no pescoço? Que sou eu sem os elefantes? Quem sou eu sem a que espera o moço bonito voltar? Quem sou eu sem a alergia à manga? Quem sou eu sem a que gosta de verde? Quem sou eu sem querer perder a barriga? Quem sou eu sem as expectativas? Quem sou eu sem as decepções? Quem sou eu sem a ansiedade em realizar? Quem sou eu sem a mãe? Quem sou eu sem tudo o que li? Quem sou eu sem aquela que se deixa ser lida? Quem sou eu sem banana amassada? Quem sou eu sem os valores? Quem sou eu sem os medos? Quem sou eu sem a que corre no trânsito? Quem sou eu sem a que sonha? Quem sou eu sem as certezas? Quem sou eu sem a que usa óculos? Quem sou eu sem aquela que caminha pela cidade? Quem sou eu sem a fé? Quem sou eu sem as Bachianas? Quem sou eu sem a que organiza tudo em caixas?

A luz que vinha da janela iluminava o lado esquerdo do meu rosto. O direito era escuridão. No centro do rosto há um ponto, sabe? Quando os olhos focam nele, os dois lados são vistos com a mesma luminosidade. Equilibra. Me pego fazendo um gesto qualquer em meu rosto e então… suspiro, aliviada, sorrindo. Essa que me olha agora sou eu.

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“Precisamos desesperadamente uns dos outros para existirmos com algum grau de sanidade. É através do outro que nos enxergamos e podemos, então, nos expressar. Sem esta interação, estaríamos destinados a caminhar sem identidade.
Por outro lado, com a mesma intensidade, necessitamos da solidão, pois, se no outro nos enxergamos, só nela conseguimos reconhecer o que somos, verdadeiramente.
Em grupo, o homem se percebe.
Na solidão, o homem É.”
LuDarpano

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30 outubro 2017 at 07:53 Deixe um comentário

procurando a luz mais triste

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eu desço dessa solidão
espalho coisas
sobre um chão de giz
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Foto: Danielle Salmória
Lamúria: Danielle Salmória
Tradução da dor: Zé Ramalho

17 outubro 2017 at 22:20 Deixe um comentário

Oh, Arlindo Orlando

Este é mais um programa da séria série “Dedique uma canção a quem você ama”!
Eu tenho aqui em minhas mãos uma carta
Uma cartinha de uma ouvinte que nos escreve 
E assina com o singelo pseudônimo
De Maripooosa Apaixonaaada de sei lá onde
Ela nos conta que no dia em que seria o dia do dia maaaaix feliiix de sua vida
Arlindo Orlando, seu noivo, um caminhoneiro conheciiido
Da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte 
Fugiu, desapareceu, escafedeu-se
Oh, Arlindo Orlando volte, onde quer que você se encontre
Volte para o seio de sua amada, seu filh…..**

 

Riendo para no llorar. Rindo porque nem consigo chorar. Às vezes esse meu choro teima em se esconder em algum canto que não sei onde nem porquê, e custo a “bater o pique-esconde”. Brincadeira mais sem graça. Minhas histórias de amor dariam um livro. Volumes 1 e 2. Sou uma eterna apaixonada. Sem paixão não me movimento, não crio. Quase que vegeto, dormindo e acordando só pra pagar contas. Então, desde que me conheço por gente feita, estive quase sempre apaixonada. Por alguém ou por alguma coisa. Quando a paixão pende por algo (trabalho, algum livro, alguma música, uma cidade, uma teoria…), fica fácil. Quando pende por alguém, nem sempre. É um tal de vai e vem, fica e some, volta e meia-volta…

Teve o Ernestinho, lá nos meus 11. Primeiro beijo mais lindinho de todos. Antes e depois dele, algumas paixõezinhas platônicas de carteira de escola. Teve o Patrick, né, como não? quem não? Teve o primeiro namorado que voou no foguete do Armagedon direto pra Alemanha pra quase nunca mais. Teve o Marco… ahh, o Marco! Depois o negócio ficou sério e veio o pai do meu filho. Depois… humpf… pula essa parte e vai direto pro hómi gentleman dos pêxe. Uma interessante e bem harmonizada vivência. Opa, quase ia esquecendo do menino que me ajudou a não esquecer de olhar, hoje um bom amigo da minha alma. E então, caindo mansinho de paraquedas na minha vida, de um susto só, o Arlindo Orlando e as gargalhadas e os sorrisos e a leveza que vieram junto! Eis um resumo bem resumidinho este, só pra eu não esquecer de nenhum deles quando ficar velhinha. Espero que a lista não aumente (muito), pra não complicar pra memória. E também porque acredito em amor pra vida toda, almas gêmeas, blá blá blá e naquele casalzinho de 80 anos de mãos dadas caminhando à beira-mar.

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Agora, cá estou com um sorriso esquisito na cara. Véspera de feriado, forrózim dos bons tocando ali pras outras bandas, e eu aqui, usando da terapêutica da escrita pra rir um pouco de mim mesma. 30 dias da árvore dos nossos guris vazia. 30 dias de um intensivo de Júpiter em Escorpião. Alegria, tristeza, amor, dor, medo, coragem, luz, sombra. Tudo agora e bagunçado, tudo intenso, tudo anestesiado, revirado, me virando do avesso. Transformando. Dias de mergulhos profundos em piscina com medo d´água. Na parte mais funda da piscina, o que mais temo e também meu maior tesouro.

Quem tem amor na vida, tem sorte!***

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* Desenho de Ivan Mola, do blog www.euteamohoje.com.br
** Trecho de “A Dois Passos do Paraíso”, da Blitz.
*** Trecho de “Sinônimos”, do Zé Ramalho.

11 outubro 2017 at 00:22 Deixe um comentário

Meu velho, setembro…

Setembro atípico. Meus setembros são sempre ano-novo. Em setembro tudo muda aqui. Surgem, como que por imposição de um calendário invisível, boas novas no trabalho, inspirações, novas motivações. Surge até, geralmente, namorado novo.

Este chegou com resquícios de luto. Essas coisas que a vida faz com a gente, meio que sem nos avisar. E quando avisa [não via correio nem por um bilhete grudado na porta da geladeira, mas pela intuição], já é tarde da noite e a gente deixa pro outro dia. Que não chega. E lá se vai um de nós carregando parte de uma história, a memória.

Este chegou com a morte. Essa alguma coisa que nos ronda de tempos em tempos, despertando a lembrança de que estamos vivos. Essa alguma coisa que dói e que motiva, porque sendo morte é também vida. Essa coisa que deixa tudo tão pequeno. Tão menos. Tão leve. Essa alguma coisa que clareia um pouco mais. ♫ Clara como o clarão do dia, mareja o meu olhar…

Este chegou feito hérnia de disco apertando a medula na cervical. Um aviso. Uma chance de vida que, dessa vez, ela nos deu!

Este chegou com a vida. Chegou com o brilho de um novo lugar, porque sair da rotina é fundamental pra faxinar. Chegou com a garra de gente que parece pouca, parece pequena, mas que é um mundo em si. Gente de verdade, uma inteireza só.

Pensando bem, foi tudo igual, é ano-novo. Eu, que estava acostumada a reveillóns alegres, como em dias de circo, esqueci que o palhaço também é um triste. Esqueci que o palhaço também morre e renasce, todos os dias. Um viva à vida!

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© Danielle Salmória
Uma homenagem ao palhaço Domingos Montagner, ao meu tio Walfrido Gottlicher e a todas as minhas relações.

18 setembro 2016 at 19:40 Deixe um comentário

[ about last night ]


Nem vou escrever nada sobre este lindo aí…. Carinha que tá comigo no meu carro há um mês e pouco, desde que eu descobri a existência dessa coisa linda… por dentro, por fora, de frente, de costas, do avesso… sim, apaixonei! Algo parecido aconteceu em 1900 e bolinha, com o Toni Garrido. 😀

Quero escrever sobre a criatura que disputou comigo os olhares do Tiago Iorc esta noite. Por muito tempo eu achei um pé no saco ter irmã. Era briga atrás de briga, implicância absurda, todos os dias, dos dois lados. Perrengue que durou umas…. três décadas. Até que, como num passe de mágica (ou por um ultimato), a coisa mudou de figura. De repente, aquela criatura das trevas passou a ter, pra mim, algo de doce. Eu mudei ou ela mudou?

Nesta noite de sexta-feira 13 exorcisamos nossos negros e mais belos fantasmas. Fantasmas com algo de adolescente, cantando a plenos pulmões, rindo, rindo muito, relembrando tempo de faculdade, dividindo um pedaço de pizza, descendo correndo as escadarias do teatro atrás de alguém que nos tocou com seu olhar e sua música, burlando filas, tentando chegar perto… e fechando a noite num samba de duas, daqueles batuques que me envolvem, brincando Carnaval em pleno estacionamento de uma PUC Sapucaí! Noite pra memoriar. Não pela paixão adolescente. Mas pela melhor companhia que eu poderia ter. Pela minha grande parceira de vida. Te amo, Jam! Companheiraça foda, mesmo rabugenta!

Hoje eu iria comemorar minha 34ª volta ao redor do sol em uma segunda noite de show dessa coisa linda. Mas, pensando bem, me pareceu mais atraente uma berinjela gratinada na companhia da criatura que amo de amor maior, minha irmã.

E…….. só pra constar, James, ele olhou muuuuuuito mais pra mim!

Obrigada por existir na minha vida, cxcx!
‪#‎tiagoiorc‬ ‪#‎tiorcs‬

16 maio 2016 at 22:09 Deixe um comentário

Freedom = Love

“Amo-te afim, de um calmo amor prestante, 
E te amo além, presente na saudade. 
Amo-te, enfim, com grande liberdade 
Dentro da eternidade e a cada instante.”

Vinicius de Moraes 

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Casamento dos lindos Rob & Nina! Aquele momento mágico em que estamos no local certo na hora certa! Uma bela surpresa para todos que faziam a travessia da Staten Island Ferry, NYC [maio 2014].

16 junho 2014 at 14:13 Deixe um comentário

Primavera em NY #2

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26 maio 2014 at 03:30 Deixe um comentário

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Por Danielle Salmória

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