O tudo aqui dentro – Parte I

Tudo o que a gente precisa saber de mais importante na vida está em nós mesmos. “Os melhores livros são aqueles que lhe dizem o que você já sabe” (li nalgum lugar ontem). Parece que foi George Orwell quem escreveu (duvido).  De qualquer forma, tem uma certa razão. Os livros que mais me tocaram foram aqueles que eu li pensando “meu Deus, eu poderia ter escrito isso”, “siiimmm, é exatamente assim que me sinto”, “caramba, como ela/ele sabe tudo isso sobre mim”?

Estou lendo um livro assim agora…

Mesmo assim, mesmo tendo tudo o que preciso saber aqui dentro mesmo, às vezes me perco. A gente se perde. Passo dias, meses, desconectada. De mim. De você. Do que preciso fazer. Da razão de eu estar aqui. Em tempos cinzas assim podemos olhar pro lado e tentar alcançar uma tábua de salvação. Nesses tempos de olhar paredes e enxergar vazio, devemos olhar pro lado. “Preciso estar mais na rua”, falei em voz alta esses dias, sozinha, enquanto caminhava numa rua vazia à noite. Não estava vazia. Disfarcei, ri e segui!

Ontem estava cinza. O céu, a cidade toda. Aquela estrada que meses atrás me levou de volta à vida, às águas… tão cheia de cor… agora cinza. Quase esbranquiçada, sem vida. Reclamando e emburrando com todo o mau humor que pude juntar sabe Deus donde, entrei naquela água e só pude dizer “tá fria”. Tava tudo frio.

Nadei. Nadei. Nadei. É sempre na quinta série de 4 piscinas de 50m que eu consigo entrar no vazio só meu daquela minha água toda. Só conecto/relaxo/viajo/esvazio quando chego perto de completar os 1000m.

Gosto do nado submerso. Me sinto meio sereia, como se pudesse viver pra sempre debaixo d´água. Mas nunca passei dos 12 ou 13m submersa. Coração começando a acelerar e o medo de não conseguir subir antes de acabar o ar de dentro de meus pulmões fazia eu antecipar a subida. Ontem, não. 20m submersa! E todo o mérito não de meus pulmões, mas de minha cabeça. Mantive o controle da respiração, das batidas do coração… do medo. Mantive a constância do movimento. Uma vez. Duas vezes. Três vezes!

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No fim do treino, um homem me pergunta “tá boa a água?” Não respondo, esperando, curiosa. “Tá boa!”, ele diz. Ri, então! Boba de mim, ai de mim…

[ texto e foto: Danielle Salmória ]

4 agosto 2017 at 02:38 Deixe um comentário

A história que ganhei do Sol

A primeira frase de um texto é decisiva. Ou te prende ou te perde. Este eu poderia começar com “O reino de Deus está em vós”. Ou ainda “Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, e qualquer que a perder, salvá-la-á”. Começar com Lucas 17, sua maluca? Na certa perdeste o senso. E mais certo ainda é que já perdeste assim uns bons tantos leitores.

Se deixar de lado o pré conceito que com certeza surgiu na tua mente neste primeiro parágrafo e prosseguir na leitura, eu garanto que vosmecê chegará à Clave de Sol. A Clave de Sol é o que dá nome a todas as linhas e todos os espaços. Enfim… vamos recomeçar! Dessa vez com algo mais simples, mais fácil, mais bonitinho: pode ser “querido diário…”

“E se quiser saber pra onde eu vou… pra onde tenha Sol. É pra lá que eu vou.”

Fim de tarde de um sábado de festa junina na escola das crianças. Disposição quase zero pra essas festas cheias de gente… o vai e vem de formiguinhas tumultua meu pensar e perco por completo meu norte. Fujo no meio da festa para uma feira de livros em outro canto da cidade. Somente eu e a balbúrdia das palavras. Um caos interno mais facilmente administrável.

Na volta pra casa, o pôr-do-sol me põe numa rota qualquer e me deixo ser guiada. Paro o carro no meio da rua e, enquanto o motorista no retrovisor não me alcança, faço a primeira foto. A sombra de um casal no muro do cemitério São Francisco de Paula. {Não existe o acaso} Lugar de morte e de vida.

Sigo para ruas altas, farejando raios de sol por entre galhos de uma Araucária. Algumas outras fotos pelo caminho: o skyline do Centro Cívico, as antenas do Pilarzinho… direita, esquerda… ao léu. Ao sol. Até chegar no topo de uma ladeira muito, muito iluminada, e estacionar. O Sol entre galhos. Confesso que não de Araucária, mas galhos outros quaisquer. Faço a foto, dou-me por satisfeita, engato a ré para enfim voltar para casa e… um violão brilha sob o Sol ao lado do meu carro. Dentro de uma lixeira. Curiosa, desligo o motor, saio do carro e sem olhar muito à minha volta disparo a câmera naquela cena, ao mesmo tempo em que matutava sobre o dono do violão e o porquê daquele instrumento na sarjeta. Não demoro a ouvir uma voz de criança e, de canto de olho, ver vultos. “Mãe, olha, ela está fotografando”.

Mãe e filha vêm até mim. A conversa progride tão rápido que em menos de cinco minutos eu já sabia quem era o dono do violão, o motivo do violão estar na lixeira, o porquê daqueles olhos marejados e me vejo dentro da casa da Vanessa e da Sofia. Entrei pelos fundos, contornando a casa, convidada a conhecer o deck. “Você vai ver, tem uma vista linda… fica lindo no pôr-do-sol”. Em poucos passos a mulher me diz quem construiu o deck, como foi a construção, o que ainda tinha por ser feito ali e me mostrou todo o quintal. Nesse curto trajeto tive tempo de sobra para me encantar pela menina, que saltitava, tagarelava e posava de princesa para minha lente. No deck, conheci um bom tanto da vida daquelas duas. Daqueles três.

“Entra pra conhecer a casa… quem vê de fora não imagina que ela seja assim, né?” Na minha cabeça uma montanha de informações, feito presentes que não param de chegar em dia de festa. Paredes cheias de quadros e pôsteres, Van Gogh e uma Paris de 1950 acolhem os amigos. Vanessa já me disse que essa é uma casa cheia de amigos. Nem precisava dizer.

“Tem mais um tempo?” Tenho. No quarto, me mostram uma fotografia na parede (Vanessa aos 18) e outra numa moldura coberta por panos e guardada em algum lugar no armário. Ângelo.

Outrora analista de sistemas, guarda municipal. Poeta. Passeou pelos números, se embrenhou nas letras. “Vê aquelas caixas ali? Tudo texto do Ângelo. 150 textos. Poesias, letras de música, histórias infantis… Tem ali também alguns textos de autoria de Seu Benedito, meu sogro, que não conheci”.

– Vou escrever essa história, Vanessa.
– Quer anotar o nome dele pra não esquecer?
– Não, eu vou lembrar. Ângelo Matiero Monteiro.

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“Sua voz é talhada para as ondas do rádio. Vê-lo lendo para os pequenos no pátio do Nimpha parece mentira, tão bonito é. Nem tive coragem de perguntar se alguma vez ele precisou usar o cacetete. Qual o quê. Não é todo dia que um guarda nos fala
sobre o poder da imaginação, indica o melhor caminho para o Centro e ainda
deixa a certeza de que nunca vamos esquecer qual é mesmo o seu nome.”

[José Carlos Fernandes, 10/11/2011,
em www.gazetadopovo.com.br]
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Chegamos ao fim da história. Esse foi só um jeito de contá-la. Pode ser que o reconto, outro dia, dê a ela outro começo. Pode ser até que não tenha fim…

De minha parte, entoo “Oh, oh, seu moço do disco voador, me leve com você, pra onde você for, mas não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí…” e sigo contando essas histórias de músicas, sóis e estrelas.

O violão? Não estava mais na lixeira quando voltei à rua.  Outra estrela já deve estar dedilhando nele uma Clave de Sol.


Texto e fotos: Danielle Salmória
contato@atelierdamemoria.com.br

30 junho 2017 at 07:30 3 comentários

meu infinito particular *

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Abri o wordpress agora à noite numa fuga adolescente rumo àquele lugar que é só meu e um botão simples, imperativo, lá no canto no alto no lado esquerdo, me libertou. “ESCREVA”. Respirei. Fundo, aliviada. Resgatada. Cliquei e recebi uma página de papel em branco. Tem outra coisa qualquer mais poderosa do que um papel em branco? Pra mim, não.

O mesmo papel que recebe palavras, recebe fotografia. Papel que recebe minh´alma. Ainda que virtual, pra mim, papel. 

Ontem ganhei um bloquinho, metido a moleskine, todo em branco, todo branco. Primeira palavra que ele recebeu foi propósito. […] Ouço Marisa agora e ela me puxa de novo pra fora de mim e me carrega lá pro outro lado da cidade, onde ele está.

Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz

Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Eu só quero que você caiba
No meu colo
Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás

Na verdade, ela só me arrancou daqui porque ele está em mim. Não saí de lugar nenhum, não. Continuo bem, aqui dentro. Agora vou abrir outra gaveta. Uma que fica lá no final do corredor, na última porta do último armário. Cheia de badulaques e fotografias, relicários e músicas, poesia que me silencia por inteiro e faz ouvir só o som do tambor. Tambor que é coração. Linha tão estreita que quase perde o foco. Mas a lente é sensível.

 
{ * com todo respeito, Marisa Monte…  }
Texto e foto: © Danielle Salmória

2 junho 2017 at 23:07 Deixe um comentário

Atraente

Cuide de quem está perto quando toca o choro. É som que revela. Pr´além dos segredos da vida do estranho sentado ao teu lado, é trololó que chega num lugar de alma. No passo apressadinho, tão miúdo, atrevidinho, contorna a córnea, desvia e deixa escapar algo bem de si, lá de onde fica o cristalino, e embala o batuque dos dedos no tecido surrado da alfaiataria. Mas só aos olhos de quem chora…

[…]

Preto que se vê. Calça de brim preta desbotada, jaqueta acinzentada. De íris negra e cabelos de azeviche.  No forrobodó daquela manhã, os dedos embalados no batuque choroso. Dos olhos, brilho de lágrima discreta, funda que não se vê. Impenetrável, a não ser num piscar fugidio no maxixe. Revela. Choro de abrir alas e deixar passar.

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Foto: Danielle Salmória | Orquestra à Base de Corda em homenagem a
Chiquinha Gonzaga no Conservatório de MPB de Curitiba | 29 de abril de 2017

9 maio 2017 at 11:40 Deixe um comentário

Neste cinco…

No aniversário do ano passado lhe dei um gorro inacabado. Um gorro em tricô de lã azul. Só quatro carreiras com 64 pontos em agulha número 9. Terminei mais tarde, uma semana depois. 

Neste cinco não sei o que dar. Brinquedo? Só joga bola. Bola? Tem umas tantas. Roupa? Humnão… Celular? Acabou de ganhar. Livro? É uma opção. Aquele outro jogo do X-Box que ele gostou? A vó comprou. Talvez então pudesse emoldurar aquela sua caricatura e embrulhar com laço vermelho… Também está precisando de um óculos novo de natação…

Hoje completa 11 anos. Outro ano se passou e a memória das contrações continua latente. Dor que se sente no coração não é dor.

Ontem ouvi 11 histórias. Onze reles mortais que no tempo frouxo de cinco minutos falaram sobre os maiores erros de suas vidas. Um errou no plano de negócios da empresa, outro na escolha do sócio, outro lascou-se ao tentar pular a cerca, outra foi despretensiosa demais, outro pretensioso, outra falhou no planejamento… Não se preparou. 

Felipe veio no susto, mas com aviso prévio. Um ano antes a avó sabia que ele viria. No dia em que veio, eu soube também. Eu não precisava do resultado do Beta HCG. Sabia que algo de maravilhoso tinha acontecido em mim. Talvez não imaginasse o quão maravilhoso. 

Ainda assim, não tive tempo de aprender. Nove meses do início de uma busca interminável. Não fui ensinada a ser mãe. Não fui preparada para criar e educar outro ser humano. Mas amamentei e aqueles dois olhinhos que me fitavam com extrema ternura a cada mamada foram me ensinando e fui me tornando mãe. E vou me tornando ainda. E vão me ensinando. 

Erro tanto com meu filho. Errei tanto com meu filho. Não por falta de amor, claro. Às vezes entro no automático e sobe ao palco uma mãe fria que – de tão quente de raiva, pressa e irritação – não enxerga o que aqueles olhinhos podem mostrar. Exige de um lado, puxa de outro, aperta, esgota, reduz, infla… chora, grita. Enlouquece. Cega. Emudece. 

[…]

Talvez hoje o que eu posso dar a Felipe sejam todos os meus erros. E não canso de dizer “saiba sempre de todo seu valor, saiba sempre quem você é, saiba sempre da imensidão da qual você é capaz e da fortaleza e da bondade que carrega, apesar de mim”. 

Talvez hoje o que eu posso dar a Felipe seja meu silêncio. O silêncio que reverencia e que permite enxergar. O silêncio que dá espaço. O silêncio que não exige um Lipe (apelido que escolhi, ainda adolescente, para um filho meu), mas que abraça a perfeição de um Fezoca, um Fê, um Fêzinho, um Felps… Felipe nunca foi Lipe, e é tão melhor assim!

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Meus parabéns a você, meu filho, com todo meu amor! Nem nos meus maiores sonhos – e olha que eu sonho muito, né?! – poderia imaginar serzinho tão doce, tão esperto, tão sagaz, tão lindo, tão generoso, tão amigo, tão parceiro, tão alegre, tão divertido, tão carinhoso! Desejo que você continue sendo sempre todos esses Felipes que você é e os tantos outros que ainda vai inventar, olhando pra tudo e pra todos com o olhar mais doce que já vi, acarinhando com as mãos mais carinhosas que já senti, acolhendo com o abraço mais gostoso do mundo. Você é todo amor! Obrigada por estar na minha vida! Te amo e amo você!

5 maio 2017 at 09:26 2 comentários

sobre ternura e outros bichos

A porta já aberta e ele ali parado. Não percebi o corpo inclinado. Fila de carros atrás, talvez gente apressada pra deixar logo o filho na escola e chegar sem atrasos ao trabalho, talvez gente tranquila. Perguntei o que estava esperando, “o beijo, mãe”.

Há anos dou um cheiro em Felipe quando o deixo na escola. Geralmente ele foge, só por birra e por aquela vergonha típica da idade, quando na frente dos amigos.

♩ ♫ Constança, meu bem, constança. ♬ ♪

Pequenos sinais na rotina vão nos apontando a certeza do caminho. Que venha um oceano inteiro. A intimidade, mais que o acaso, nos protege.

felipe11

24 abril 2017 at 09:06 Deixe um comentário

Foto com som

Uma sinfonia de gotas, uma a uma, tocando meu carro.

fotocomsom

31 março 2017 at 10:46 Deixe um comentário

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