As quatro estações, lá fora, aqui dentro

INVERNO. 10h30. Vontade alguma de sair da cama. Cabeça e todo o resto – corpo, ânimo, ideias, esperanças e emoções – enfurnadas debaixo das cobertas. Espio pela cortina, o cinza não me anima. Fecho os olhos.

PRIMAVERA. Conversas despretensiosas na cozinha. Conversas mansas, daquelas que gosto, trazem um pouco mais de cor. Tempo muda lá fora. Abre-se o céu. ”As quatro estações em um dia”, é a fala de Maria, olhando pela janela, enquanto almoça, de lado na mesa, recostada na parede, pensativa…

Segundo ato. Entra na cozinha a mãe. Lança um olhar cúmplice acompanhado de um sorriso próprio de quem sabe mais do que deveria saber. O comentário acerta no alvo. Escolhidas a dedo [ou a esmo?], as palavras desvelam o motivo de meu recolhimento invernal naquela manhã. Então, um sorriso da alma e alcanço, enfim, a primavera.

VERÃO. Fim de dia. Energia vibrante, pulsante, viva, do entardecer. Um grupo de pessoas reúne-se, com objetivos semelhantes. Sorrisos amigos. Olhares ternos. Abraços especiais, toques de troca.

OUTONO. A volta, o recolhimento. Força potencializada diante da certeza dos novos invernos que virão.

Eis o teatro da vida.

27 abril 2009 at 16:16 1 comentário

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.” Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente: Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?” Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cimas das casas. É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector, 12 de setembro de 1970.

24 abril 2009 at 20:07 1 comentário

A mim… holofotes de relax!

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A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela! Fez um desembarque fascinante no maior show da Terra! Será que eu serei o dono dessa festa? Um rei no meio de uma gente tão modesta! Eu vim descendo a serra… cheio de euforia para desfilar! O mundo inteiro espera… hoje é dia do riso chorar! Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar, contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá, eu levei… Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar, contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá! Acredito! Acredito ser o mais valente! Nessa luta do rochedo com o mar! E com o mar… É hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar! Diga espelho meu se há na avenida alguém mais feliz que eu! Diga espelho meu se há na avenida alguém mais feliz que eu…

… porque toda a força do mundo está aqui, dentro de mim. Porque há mais coisas entre o céu e a terra do que pensa minha vã filosofia e… porque… justamente por este motivo, é que as coisas devem ser feitas dentro da LEI DO MENOR ESFORÇO! Porque descomplicar é a regra! Porque ser BOBO, na maioria das situações do dia-a-dia, é a melhor opção! Porque ser transparente é SER LEAL A SI MESMO! Porque o amor deve ser INCONDICIONAL! Porque sem proteção, a gente pode ser perder! Porque sem acreditar, a gente pode nem se encontrar! Porque preocupar-se com o que o outro pensa é perder tempo precioso de crescimento e auto-conhecimento! Porque sem PAIXÃO  a vida não tem a menor graça! Porque a INTENSIDADE é o que vale! Porque deixar de rir é deixar a alma na GAVETA! Porque deixar de ser criança é ficar olhando, DA JANELA, a vida desfilar pela avenida! Porque…..


* Letra da música É Hoje, composta por Didi e Maestrinho.

23 abril 2009 at 23:59 Deixe um comentário

Ahhhh….. dia lindo!!!

menina
Acho que, além das próprias crianças, somente quem não se desligou da criança que foi um dia é que sente o cheiro gostoso de um dia ensolarado como o de hoje, sente a brisa refrescante de um azul-celeste sem nuvens, entende o linguajar dos passarinhos voando por entre os galhos das árvores, conversa com o vento, fala com um cachorro através do olhar, brinca com os aviões cruzando o céu, voa com as borboletas, desabrocha com as flores, pulsa com as cores do mundo……………….. [DEPOIS QUE VOLTAR DO MEU "DIA DE SPA" TERMINO O TEXTO!]

18 abril 2009 at 11:05 1 comentário

… e foram felizes para sempre!

eraumavez
A histórinha de ontem à noite era sobre Luciana e suas brincadeiras na pracinha!
Ela encontrava os amigos e ia interagindo de maneiras diferentes com cada um deles!
Luciana correu,
pulou corda,
virou estrelinha,
deu cambalhota, 
pulou amarelinha,
cantou na roda,
fez carinho no gato,
ficou amiga do pato,
se embalou na balança,
fez castelos de areia,
deu duas lambidas no sorvete, 
deu tchau pro homem da perna de pau,
se enfeitou com uma flor no cabelo,
seguiu uma borboleta,
fez novos amigos.

Pensam que assim terminou a história?!
[...]
Momõe…. “e eles foram felizes para sempre”!

[...]
Fui dormir, então, pensando na tal felicidade! Esse meu filho…. !!!

* Leitura antes do Fê nanar: Luciana na Pracinha, de Fernanda Lopes de Almeida e Agostinho Gisé. São Paulo: Ática, 1994.

16 abril 2009 at 19:00 1 comentário

hilda21981
    Trecho de "A Obscena Senhora D", de Hilda Hilst.

15 abril 2009 at 13:17 Deixe um comentário

Dos vulcões…

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A onda ainda quebra na praia,
Espumas se misturam com o vento.
No dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
pensando nós dois.

Eu lembro a concha em seu ouvido,
Trazendo o barulho do mar na areia.
No dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sozinho olhando o sol morrer
Por entre as ruínas de santa cruz lembrando nós dois.

Os edifícios abandonados,
As estradas sem ninguém,
Óleo queimado, as vigas na areia,
A lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos,
Por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas.

Pois no dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sozinho no mundo, sem ter ninguém,
o último homem no dia em que o sol morreu.


No Último Pôr-do-Sol, de Lenine, a certeza de que a paixão é essencial, sempre, durante toda a vida! Paixão pelo outro, paixão por nós mesmos, paixão pela natureza, pela paisagem, por uma viagem, por conhecer, por crescer, por uma amizade, por um anônimo, por alguém perto, por alguém distante… paixões reais, paixões virtuais, paixões platônicas… paixões novas, paixões antigas… paixão de irmão, paixão de amigo, paixão de filho, paixão de bicho… paixão de não fazer nada, paixão de impulsos, paixão de correr atrás do que se pensa valer a pena… paixões que não valem, paixão que vale… paixão de vida real, de dia-a-dia, ou paixão de cinema… paixão de solidão, paixão de solitude… paixão de dia, paixão de noite…. do Sol, da Lua… da Terra, do Mar… paixão da Água, do Ar… paixão concreta, paixão de ilusão… perdição… encontro… certezas e dúvidas… é assim a vida com PAIXÃO! Um arrebatamento constante, por tudo, por todos, por si mesmo! E depois do vulcão, o silêncio morno, o azul da calmaria, o verde-água do sangue suspenso no ar! O último homem no dia em que o sol morreu.

13 abril 2009 at 13:44 Deixe um comentário

Aos que criam pequenos reizinhos!

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É preciso deixar reinar a criança da casa, para que assim, poderosa, soberana, ela desperte a nossa própria criança, talvez há tempos guardada a sete chaves. É preciso ver as crianças como seres especiais que muito têm a nos ensinar. Um olhar, um sorriso… dizem mais que palavras de um catedrático. É sabedoria natural, da essência da alma, carregada de memórias ancestrais. É preciso buscarmos, dia após dia, o “Diploma de Pais”, a “Medalha de Melhores Alunos”, na árdua tarefa de educarmos com amor! É preciso, dia após dia, lutarmos contra a impaciência. Só assim, de coração e mente abertos, livres das amarras do relógio, das vontades e dos impulsos, é que conseguiremos enxergar nossos pequenos com os olhos do coração! Eles são transparentes. São sinceros, mesmo que nas entrelinhas! Basta um pouco de atenção, de olhar atento, de ouvido apurado, para fazermos uma auto-avaliação como pais, educadores, companheiros e exemplos. Eles nos dizem que tipo de pais estamos sendo. E para sermos bons, não precisamos da ajuda de mestres-gurus da “arte de criar e ensinar”. Muito menos devemos ser “super-heróis”. Precisamos fazer o que há de mais fácil: ESTARMOS POR INTEIRO, DE CORPO E ALMA, AO LADO DE NOSSOS FILHOS! E SÓ! 

13 abril 2009 at 01:32 3 comentários

Minha Querência na Quaresma

A Quaresma é, em resumo, a preparação dos cristãos para a grande festa da Páscoa. Durante este período, os fiéis são convidados a um período de penitência e meditação, por meio da prática do jejum (privação e purificação), da caridade e da oração. Começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na tarde da Quinta-feira Santa, quando se inicia o Tríduo Pascal. Para alguns, é uma época de esforços pessoais na tentativa de se tornarem seres-humanos melhores, hasteando a bandeira da justiça, da paz e do amor entre os homens. É um empurrãozinho, digamos assim, já que esses esforços podem – e devem – acontecer nos 365 dias do ano, não apenas nesses 40! Por exemplo, este ano, meu propósito inicial para a Quaresma era [era!] não falar palavrões. Ao menos, reduzi-los. Confesso que, por maiores que tenham sido meus esforços, não alcancei este objetivo! Às vezes eles precisam extravasar e dão uma escapulida!

Fato é que, de um jeito ou de outro, vivenciei com intensidade a Quaresma deste ano. Apesar de católica por batismo, vivo de acordo com a espiritualidade que meu coração manda [e , admito, ele é muito mais à vontade com os costumes pagãos! Por sinal, de onde originam muitas das festas cristãs]! Mesmo não concordando com diversos preceitos da tradição católica, sigo alguns caminhos dela. A Quaresma é um entre os quais acho interessante. O recolhimento para reflexão sobre nós mesmos, sobre nossa vida, sobre nossa relação com Deus [ou como prefira chamar essa Luz Maior] e sobre nossa relação com o mundo é sempre válido.

Neste ano, uni à Quaresma uma palavra da qual gosto muito: QUERÊNCIA. Querência de espaço, de delimitar território, de fixar morada, de enraizar-se, de encontrar um lugar que seja seu. Querência de querer, de bem-querer. A essência da palavra “querência” está diretamente ligada a “coração”. Querência são os nossos lugares no mundo e em nós mesmos, matéria e espírito. São nossos lugares do coração, são cantinhos que amamos.  Lugares em que crescemos como pessoas, lugares onde podemos criar, onde nos energizamos, nos iluminamos, onde readquirimos nossos poderes.

Foi isso que trabalhei nestes 40 dias. Foram estes lugares – de fortaleza, de força, de conhecimento e crescimento, de gratidão, de amor e verdade – que encontrei, em mim mesma e nos outros! Foram estes lugares que reaprendi a encontrar! Foram estas querências que reaprendi a querer!

9 abril 2009 at 08:31 Deixe um comentário

Dupla Espiral

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Hoje recebi um presente especial! Uma linda menininha, de olhinhos negros orientais, me ofereceu uma belíssima flor desabrochando! A flor era um degradè do branco ao cor-de-rosa, com sutis tons de amarelo. “Uma Flor-de-Lótus”, disseram-me mais tarde!

A Flor-de-Lótus, como diz a lenda, é obra da união entre fogo, ar, terra e água. Composta de fragmentos de cada um, é símbolo da perpetuação do encontro dos quatro elementos.  A terra alimenta suas raízes. A água faz crescer sua haste. O ar tonifica suas pétalas. O calor do fogo dá as mais belas cores às suas corolas. 

Tal como a Fênix, que renasce das cinzas, a Flor-de-Lótus é exemplo do belo que brota do lodo. Resplandece nas águas, imaculada, e serve ao homem como símbolo de pureza e perfeição humana. Tal como a Dupla Espiral,  a Flor-de-Lótus, quando refletida n´água, mostra o equilíbrio para que o homem siga pelo Caminho do Meio, transite entre os três mundos.

As pétalas da Flor-de-Lótus abrem-se para o sol assim como nossa alma abre-se para o entendimento!

Criança linda, lhe agradeço o presente divino! A beleza e a força! A inspiração! A elevação!

 

8 abril 2009 at 23:59 Deixe um comentário

Aos meus amigos Viajantes!

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De tempos em tempos, descem à terra seres especiais que carregam Chaves de Ouro: são os Viajantes do Tempo. O mais famoso deles é MelcZdec. É alguém como o personagem Melquíades, de García Marquez, em Cem Anos de Solidão. Cigano, andarilho, vai e volta. Sábio, relata, na trama, a aparição da família Buendía, a origem de tudo, em pergaminhos míticos que alcançam a ordem do sagrado.

Os Viajantes do Tempo são aqueles seres, personificados, capazes de grandes transformações. Têm o dom de iluminar, renovar, fazer renascer. Às vezes, quando o mundo necessita de uma reviravolta antes da perdição total no meio do caos, ocorre um movimento intenso de Viajantes do Tempo entre nós. Nesses períodos, há um enxame de nascimentos de crianças que trazem a centelha de luz e desenvolvem, mais tarde, atividades que envolvam as artes, o belo, a criatividade. Eles veem, plantam sementes de amor, concretizam suas tarefas, cumprem sua missão, e se vão, deixando para nós um mundo mais iluminado.

O Renascimento, após a obscuridade da Idade Média, é um exemplo desses períodos. Foi uma época marcada pelo aparecimento de grandes artistas, doutores, alquimistas etc. Nesse nosso tempo de agora – império da ganância, do medo, do desrespeito ao próximo, da desconfiança, da violência, da ignorância, da irresponsabilidade ambiental, da irracionalidade coletiva… – contamos, mais uma vez, com a ajuda desses Viajantes! Aos olhos dos corações mais sensíveis, é fácil notar a presença deles no meio de nós! Sejam famosos, grandes homens da humanidade, consagrados pela História… ou anônimos, pessoas grandes sempre dispostas a dar um sorriso de paz, um olhar atento, um terno abraço, um silêncio amigo, uma boa palavra…

Há quem os chame de Nação do Arco-íris ou Seres Índigos ou…  não importa! Integram um grupo de seres de luz e, graças a eles, há esperança para a humanidade! As características dos Viajantes do Tempo são:
-  DEVOÇÃO (doação, dedicação extrema ao  trabalho);
- FORTALEZA (têm a força de olhar para si mesmos e reconhecer sombra e luz);
- HONRADEZ (respeito aos outros, mas primeiro a si mesmo);
- LEVEZA (flexibilidade, nem tanto ao céu nem tanto à terra);
- ORGULHO (do que são, sabem se posicionar);
- MEDIUNIDADE (reconhecimento dos poderes sutis que todos temos);
- MISERICÓRDIA (abertura de coração, compaixão consigo mesmo e com os outros);
- GRATIDÃO (a si mesmo e aos outros); e,
- INTELIGÊNCIA (enxergar com desapego, sem julgar. Ver com todas as nossas visões. Abertura total. Respeitar. Olhar duas vezes, sem impulsos nem impaciências).

Isso é o sagrado, porque esse perfil engloba o AMOR e a VERDADE!
E eu escrevo sobre isso hoje para despertar a atenção de todos para que percebam os Viajantes do Tempo que nos cercam! E, principalmente, escrevo para AGRADECER a todos os meus amigos, a todas as grandes pessoas que cruzaram e cruzam meu caminho e que, sem dúvida, trazem a centelha divina! Reconheço essa luz em cada gesto, em cada sorriso, em cada abraço, em cada palavra, em cada olhar! OBRIGADA POR ENGRANDECEREM MINHA JORNADA!!!

7 abril 2009 at 12:57 1 comentário

Caleidoscopiando!

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Você sabia [estilo Guia dos Curiosos!] que para que uma pessoa pudesse ver todos os desenhos formados por um caleidoscópio feito com 20 pedaços de vidro, algo que gera dez novos desenhos por minuto, levaria 500 bilhões de anos? Não sei quem fez esse cálculo [coisas da internet!] muito menos como chegaram a essa conclusão [matemática nunca foi o meu forte!], fato é que o caleidoscópio, esse brinquedinho inglês com mais de 200 anos, pode nos ensinar um bocado!

O que me fez pensar num caleidoscópio hoje foi a bagunça que se instalou em minha casa, em questão de minutos! Almofadas e travesseiros jogados no meio da sala. Farelo de bolacha no sofá. Vum-vuns e mais vum-vuns pelo corredor. Papel, caneta, lápis espalhados. Filmes, livros, gibis embaralhados. Até que…. no chão recém limpo…  de repente… terra! Meu vaso de Melissa virado no chão. Por uns segundos paro, estagnada, digerindo. Não tiro meus olhos dos seus olhos. Meus lábios começam a se mordiscar. Jááá pro quarto e não quero ouvir neeem mais uuum pio seu! Rs… [ Essa do pio é herança da pré-escola. Tive uma professora que adorava acabar com a farra dos passarinhos! ]
Não lembro se alguma vez avisei ao pequeno que não deveria ficar pulando de um sofá para o outro nem fazer de cavalinho o braço do sofá, para evitar que se machucasse e derrubasse minhas plantas. Talvez tenha avisado, sim… São tantas coisas a dizer, tantos cuidados, tantos “olha isso-olha aquilo”…
Enquanto chora e esperneia no quarto, aproveito para jantar num relativo sossego [casa com criança não se pode dar ao luxo do silêncio]. A ausência de alguém pulando, dançando, girando, perguntando, perguntando, perguntando, gritando, cantando, jogando, batuc, batucan, batucando, falando, falando, falando… é momento raro, portanto, bem valorizado!
Depois de jantar ao som de resmungos e soluços, parto pra “conversa elucidativa”. Meu filho, pare de chorar e me diga o que você fez de errado? Você viu o que aconteceu com a florzinha? A mamãe já tinha te avisado sobre isso… [já?]
Moomõõe, q-qu-quero v-vo-voltar p-pra s-sa-sala…. Tá, Felipe, vai. Mas o que vc aprendeu com isso tudo? N-não vou m-mais f-fa-fazer i-is-isso… Ok…. vai.
Dormiu no sofá, me olhando com aqueles zóinhos de cachorrinho pidão, implorando por um sorriso que o fizesse dar aquelas suas gargalhadas deliciosas. E sorri. Rs… Te amo, momõe…. Te amo, meu anjo!

E fiquei a pensar o que ele pensou na hora de pensar sobre o que tinha feito de “errado”. Que ângulo suas ideiazinhas formaram dentro do caleidoscópio de sua mente? Qual o desenho que seu raciocínio de três anos formou? Foi o mesmo desenho que vi no meu caleidoscópio? Certo que não… isso exigiria alguns bilhões de anos…
Por isso é bom espreitarmos o mundo pelo buraco do caleidoscópio! Eficiente exercício de compreensão.
A terra ainda está ali…. vou limpar agora.

7 abril 2009 at 00:13 Deixe um comentário

No ninho…

outono
Dias ensolarados, tardes luminosas, noites estreladas de brilho intenso no céu platinado. Dias de recolhimento, menos conversas e mais olhares, mais sensações e percepções, menos atitudes expressivas e mais reflexões. É importante respeitar o momento propício à introspecção. Tempo de aconchego, de ninho. Uma chance a mais de nos conectarmos com a Roda Sagrada da Vida. A oportunidade de percebermos a Mãe Terra nos envolvendo, na brisa suave e no tapete dourado de folhas secas que cobre o chão. Cores quentes nos mostrando novos caminhos. A Natureza se prepara para o inverno. As aves e os animais ficam mais silenciosos. Tudo convida ao descanso. É o outono que chega!
Com ele, novos aromas pelo ar!  O salgado do verão cede lugar ao cheiro de bolo saindo do forno! A brincadeira na areia dá lugar ao sono no colo de mãe, na casa anoitecendo com as luzes do céu. A respiração da criança orienta o ritmo da casa. Cheiro de mãe. Aconchego entre os seios, lembrança do alimento primeiro. O lanche durante a brincadeira agora é mesa posta para o café da tarde. O rosa das flores agora é canela embrenhando-se pela casa.
Silêncio nas casas, silêncio nas mentes. Agora, nossos corações voltam-se para nós mesmos e pedimos a Mabon, Deus do Amor, proteção aos que amamos e força para superarmos o porvir, a escuridão do inverno. O fogo queima, em gratidão, os nomes das mulheres que nos antepassaram e, assim, resgatamos a energia acolhedora daquela que cuida e protege.  Desde o Alban Elfed, “Luz do Outono” ou “Dia do Equilíbrio”, comemorado em 21 de março, nos voltamos ao agradecimento e nos aconselhamos com nossos sábios ancestrais. Nesta época, a 
Mãe Terra nos sopra a magia amarela e laranja e faz amadurecer os frutos que serão guardados para o inverno que se aproxima. É momento de colheita e de reserva de alimentos. É tempo de alinhar-se com a natureza para o equilíbrio dos corações!

6 abril 2009 at 00:49 Deixe um comentário

doces

2 abril 2009 at 23:18 Deixe um comentário

Da respiração, do pensamento e da estética

A palavra ESTÉTICA está diretamente ligada à percepção e sensação (por sua origem grega). Na Filosofia, a teoria estética tem como objeto de estudo a natureza do belo, a fim de determinar o que provoca, no homem, sentimentos de harmonia, afinidade, admiração etc. É também um dos fundamentos da arte. A estética, do belo ou do feio, do harmônico ou do ridículo, detona emoções positivas ou negativas.
Porém, o conceito de estética não delimita-se apenas ao corporal. Há uma estética no bairro em que moramos, na rua pela qual caminhamos, na maneira como dispomos nossos móveis, nas cores e formas das cidades… Até a natureza tem sua estética. Mas, acima de tudo, há uma ESTÉTICA INTERIOR.
No caos da vida, corremos o risco de viver constantemente num estado de frenesi. Há um excesso de atividades, de exigências e de informações que acarretam num também excesso de sensações! E, na grande maioria das vezes, essas sensações vem desordenadas. Aí então instala-se o caos interno. E, seguramente, nosso desequilíbrio estético, interno e externo, torna-se visível.
Ninguém vive as 24 horas do dia em estado de tranqüilidade extrema. Temos nossas oscilações. No entanto, é fundamental fazermos uma opção de vida: se desejamos viver no ritmo biológico do ser humano “natural, embrionário”, ou se nos deixaremos levar pelo ritmo do ser humano “social”, o ser humano inserido na insanidade do caos.
Pra quem escolher fazer parte do primeiro grupo, a primeira tarefa é aprender a RESPIRAR. É inacreditável o conforto estético interno – e, conseqüentemente, externo – que a simples CONSCIÊNCIA de nossa respiração pode causar. É fascinante o controle das emoções e a organização dos pensamentos que esta prática proporciona. E é notório, fisicamente, um estado de espírito leve.
Portanto, “decore sua alma” (como diz um amigo), inspire e expire todos os instantes de sua vida, para que sua estética seja sempre a do belo, refletindo o melhor de sua essência!

2 abril 2009 at 11:43 1 comentário

Aberturas no Equinócio

— Pra Brasília, por favor!
[...]
Quarta visão. Câmeras são instrumentos do olhar, mas somente cumprem seu papel maior quando nossa visão do meio é ativada. As câmeras fotográficas, de alguma forma, nos estimulam a abrir cada vez mais esse “olho d´alma”. Nos estimulam a ver mais longe, mais perto, mais focado, mais fora de foco, mais colorido, mais preto-e-branco, mais macro,  mais micro…
[...]

[...]
Um imenso Morpho menelaus tenuilimbata, mais conhecido como borboleta-azul-praia-grande, da mesma família que borboleteou nossa infância pelos arredores do Santa Maria, nos recebe na Ilha do Mel. As boas-vindas no trapiche!
Essa borboleta é cultuada pela tradição indígena do Brasil como a “alma do índio morto” e voa somente nos meses de março e abril.
Tento fotografá-la mas… desapereceu pelo caminho como se fosse uma entidade mágica, uma fada ou, realmente, a alma de um índio morto. 
O dia começou, então, num azul brilhando!
[...]
Nossos pézinhos começam a nos guiar pela Ilha Mágica, sob o comando do coração. Uma parada para catar conchinhas na areia. Vício e delícia antiga. Peço licença e seleciono três jóias de Gaia. Também um pedaço de madeira ou osso que, observando agora, me lembra um garfo estilizado. Garfos alimentam. 
[...]
Placas. Fotos. Nuvens. Fotos. Siris. Fotos.
Plantas. Fotos. Ondas. Fotos. Nós. Fotos.
[...]
Banho de mar.
Crianças na arrebentação.
Crianças conversando a vida.
Crianças desfiando a vida.
Crianças brincando de correr, entre vaga-lumes…

[...]
Segue a caminhada. Farol e Fortaleza em relevo na parede de uma casa.
portal[...]
Vaga-lumes me iluminam (o dia todo a poesia prevalece e “Vagalumes”, música-presente, toma conta de mim).
E foi até estranho, a gente nem deu conta,
Talvez na outra ponta, alguém pudesse pensar:
Menino vaga-lume, flor, menino estrela, a brisa mais forte veio te buscar…

[...]
Forte de Nossa Senhora dos Prazeres. Pedras imponentes. Natureza fortaleza. por de cima do muro, a gente enxerga o mundo.
[...]
Na natureza, na santa paz de Deus… “desce do coqueiro que o almoço tá esfriaaando”! O garçom acena pra saírmos do mar. Ducha doce no meio do verde. Um peixinho à dorê, no molho vermelho, acompanhado de salada e batata souté. Simplesmente de lamber os beiços (com o perdão do termo)!
[...]
Maré alta. Mas o medo não vence, pois não “tamos” só… O voo dos pássaros contagia. A cor e a temperatura d´água convencem. Não precisamos do pôr-do-sol do Farol, porque também no Istmo a poesia prevalece. A paz. No Passa-Passa ficamos. E ali demos a volta ao mundo!
E quando a gente apaga, tudo fica escuro!
No trapiche, a incerteza da ida. Na ruela das pousadas, delicadamente iluminada, a vontade de ficar. Garoa, como em toda boa viagem. As conversas mansas. Sotaque gostoso do caiçara. Escuridão plena. Apenas os pontos de luzes lá looonge, depois do horizonte. Sentadas na ponta do trapiche, sorriso no rosto e na alma, sorvemos os pingos da chuva. E a conversa também vai ficando looonge… só os pingos e a paz. O barquinho vem se aproximando. A metáfora real da passagem, agora com mais bagagem. Sozinhas na barca, travessia única, gratidão.

Na despedida, companhia:
estrelas vagalumes dentro de uma caixa! Aquele serzinho, tão presente pela música durante todo o dia, agora pousado em minha mão, caminhando por mim, seguindo comigo para casa… ME ILUMINANDO!
[...]
… um final de semana cheio de presentes… diz “tia” Renata (herança da infância, pais de amigas serão sempre tios)! A bênção de estarmos num lugar maravilhoso, na companhia da melhor amizade, no convívio de uma bonita família, rodeadas de “coincidências” pelo caminho, integradas com os cinco elementos e abraçadas pela Mãe Terra e pelo Pai Cosmos, de mãos dadas com a Irmã Lua e o Irmão Sol… DIAS-PRESENTES DE DEUS!
[...]
Pra temperar os sonhos e curar as febres,
Inserir nas preces do nosso sorriso,
Brincando entre os campos das nossas idéias,
Somos vaga-lumes a voar perdidos…
A voar perdidos…

  • Trechos de “Vagalumes”,  d´O Teatro Mágico. Mais um presente que recebi nesses dias de março!

1 abril 2009 at 05:53 Deixe um comentário

Clara clareou…

clara* De Clara Nunes.

1 abril 2009 at 05:48 Deixe um comentário

Para Viver um Grande Amor


 

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Vinicius de Moraes

  • Texto extraído do livro “Para Viver Um Grande Amor”, p. 130.

1 abril 2009 at 02:06 Deixe um comentário

Essencial… sempre, sempre!

Desejo que você tenha a quem amar
e quando estiver bem cansado
ainda exista amor pra recomeçar!

nuvem
* Amor pra recomeçar, do Barão, e foto da querida Pati Schaidt!

27 março 2009 at 15:40 2 comentários

[...] quero saber, não…

e139paraty

27 março 2009 at 01:35 1 comentário

A ela.

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Pela rua, a caminhada tem cor de praia. A noite, vazia, traz a temperatura do mar. Me traz a segurança da areia. Passos rápidos, ritmados. De repente o perfume. Adocicado. Misterioso. Morno. Indiferente. Altivo. Feminino. Já o senti antes. Atravesso uma quadra. E ele continua. Mais outra. E ele me puxa. E me puxa. Como um cordão de prata. Me conduz. É dela. Surge à minha frente, de azul e branco, esvoaçante. Cabelos longos. Venta. Nosso andar compassado. Mas a distância diminui. Ela para e isso me assusta. Na dúvida, caminho.
[...]
E encontro.
[...]
De duas, a unidade. O perfume em mim. Os cabelos longos. Meus (nossos). O vestido dançando no vento que não tem. O calor de duas almas no arrepio de frio. E assim, a força. E com ela, a lembrança de que 
são demais os perigos desta vida para quem tem paixão, principalmente quando uma lua surge de repente e se deixa no céu, como esquecida. Com ela, a certeza de que se ao luar que atua desvairado vem se unir uma música qualquer, aí então é preciso ter cuidado porque deve andar perto uma mulher. Com ela, a alegria de sentir que deve andar perto uma mulher que é feita de música, luar e sentimento e que a vida não quer, de tão perfeita. Com ela, o poder de uma mulher que é como a própria Lua: tão linda que só espalha sofrimento, tão cheia de pudor que vive nua.

* Em rosa, “meu” Soneto de Orfeu, de Vinicius, adaptado.

26 março 2009 at 02:24 Deixe um comentário

Na dúvida, abra e entre.

w73paraty

25 março 2009 at 00:51 Deixe um comentário

Os Silêncios

No meio do caos, o silêncio. A ausência de mim. O nulo. O nada.
A vontade de silêncio. Do só branco.
No barulho do motor do carro ao lado, no canto dos pássaros, na gargalhada dos moleques atravessando a rua, na conversa dos motoqueiros, no beijo e nas mãos dadas do casal… menos, menos de mim.
Exclusão.
{O nada.}
Como se tudo meu, mente, pele, sensações, voz… tudo meu tivesse sido engolido para dentro de mim e eu fosse o nada por alguns instantes. [...] Eu não fosse.
Foi o coração. Foi ele que me engoliu.

* Minha pira de hoje à tarde. Tive que estacionar o carro pra “vomitar” o texto. Tava me enchendo demais, enchendo o vazio.

23 março 2009 at 23:40 Deixe um comentário

Receita para não engordar sem necessidade de ingerir arroz integral e chá de jasmim

Pratique o amor integral
uma vez por dia
desde a aurora matinal
até a hora em que o mocho espia.

Não perca um minuto só
neste regime sensacional.
Pois a vida é um sonho e, se tudo é pó,
que seja pó de amor integral.

Carlos Drummond de Andrade
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

23 março 2009 at 11:43 Deixe um comentário

Uma Zélia de Amor

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Tecelagem primitiva em lã de carneiro. Pela delica destreza das mãos e pela força melódica dos pés de Dona Zélia Scholz, o novelo de lã vai se formando. E dele, os xales, os tapetes, os acolchoados e a singeleza de uma sabedoria acumulada por anos e anos nos “tempos pra filosofar” ao comando do tear.

O jovem se aproxima e acha tudo “irado”. Quer pegar, quer conversar, quer saber como funciona. A criança, acanhada, observa de longe e se escusa do convite de Dona Zélia de sentir a intensidade da força que sua mão aplica na lã para formar o fio. Pela recusa do garoto (por desinteresse ou timidez), ela inicia um breve discurso sobre – concluí depois – o amor. Usa a lã de carneiro como metáfora da família e de todas as nossas relações. “Sem união”, diz ela, “é impossível formar o fio”. Neste caso, não somente a união faz a força, mas a força faz a união. A união das micropartículas de lã possibilita a existência de um fio forte e rijo. Por outro lado, é preciso que Dona Zélia aplique determinada força para que se consiga criar e manter essa união.

É assim no nosso dia-a-dia. Somos seres dependentes de uniões. Sem elas não construímos nada, nem externo nem interno a nós. E, para superar todas as agruras da vida, sem dúvida, precisamos de “determinada” força para nos mantermos unidos. É um caminho de mão dupla. Foi isso que, em outras palavras, Dona Zélia nos ensinou hoje.

Por fim, agradeço suas palavras e sua atenção e a parabenizo pelo trabalho. Mas, como se não bastasse sua própria presença entre nós e o seu dispôr em nos proporcionar aquele momento de  bênção, ela se despede nos agradecendo por “vê-la”. Com aquele sorriso de senhorinha meiga, nos conta que muitos passam, alguns a enxergam e poucos a vêem. Que pena dos desapercebidos…

Por isso minha conclusão de que o discurso de Dona Zélia foi, simplesmente, sobre o amor. Porque, como o igualmente sábio principezinho, pela fala de Saint-Exupéry, afirma que “só se vê bem com o coração”, Dona Zélia afirmou e provou que só o amor mesmo é capaz de unir, de nos dar forças e de nos fazer ver!

 

* Dona Zélia Scholz pode ser encontrada todos os domingos (“menos os que chovem” diz ela!) na feirinha do Largo da Ordem! Vale a pena bater um dedinho de prosa com essa criaturinha meiga e abençoada, que adora usar o tempo do tear, “quando a cabeça está vazia, para filosofar”!

15 março 2009 at 22:27 1 comentário

Da janela sem cortinas… da minha janela…

Hummm… saudade de casa, saudade da minha aldeia… vontade de ficar mais poquetinho nesse lar colorido e em paz! 

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Da minha janela …

10 março 2009 at 01:40 Deixe um comentário

wdsc02106dÉ O QUE DESEJO À VIDA DE TODOS, ESSE ANO E SEMPRE!

Na língua havaiana, ALOHA significa muito mais do que “alô” e “adeus” ou “amor”. Seu significado maior é: compartilhar (alo) com alegria (oha) da energia da vida (ha) no presente (alo). Ao compartilharem essa energia, vocês se tornarão conectados ao Poder Divino que os havaianos chamam de MANA. E o uso amoroso deste Poder incrível é o segredo para se obter saúde, felicidade, prosperidade e sucesso verdadeiros.

Um grande ano a todos nós!

*Trecho retirado do belo texto “O Espírito de Aloha”, de autoria de Serge Kahili King e tradução de Ivonete R. Mascara (Vivi). Vale a pena ler na íntegra: <www.huna.org/html/portas.html>.

20 janeiro 2009 at 16:37 Deixe um comentário

Eu e meu mundinho cor-de-rosa…

“Falam por aí que eu vivo num mundo à parte, onde não existem maldades e onde tudo dá certo no fim… Falam por aí que eu sou ingênua demais e prefiro acreditar num mundo do meu jeito que não existe, onde tem príncipe encantado e onde tudo tem o seu lado bom… Falam por aí que eu me decepcionarei muito com a vida real. Eu bem sei disso. Basta assistir um dia de telejornal ou escutar as fofocas de rua [...] e eu me decepciono sim com muitas coisas da vida real.” *

Mas… ainda assim, prefiro acreditar no meu mundinho! Prefiro viver um dia de cada vez, com toda intensidade possível! Prefiro conversar com cachorros de rua, ver desenho em nuvens, receber visita de beija-flor e tomar banho de mangueira! Esse é meu mundinho… onde acredito na amizade, acredito no pote de ouro no final do arco-íris, acredito no amor verdadeiro, acredito no perdão e no esquecimento, acredito no ‘deixa pra lá’, acredito no rosa, no amarelo, no azul e no verde… no vermelho… no branco, no cinza e no preto também! Um mundinho onde os sentimentos não ficam guardados em mim, nem só pra mim. Um mundinho leve, alegre, colorido e em paz!

É o que desejo para todos nessa virada de ano!

Abraaaaçooosss!
Dani


[* trecho retirado do blog eueomeumundinho.zip.net, de Luana Morais.]

15 dezembro 2008 at 17:13 1 comentário

Um amarelo tranqüilo pr´Aldeia…

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6 dezembro 2008 at 21:57 Deixe um comentário

Juan Esteves POR Danielle Salmória

Como prometido (eu prometo muita coisa….. é um problema isso!), mais uma das entrevistas publicadas em 2007 na antiga revista Social Foto Clube, da qual eu era Jornalista Responsável e Diretora de Redação. Essa é uma entrevista concedida a mim por Juan Esteves, competentíssimo fotógrafo desse nosso Brasilzão (tenho mania de usar superlativos pra elogiar o Juan… mas é “merecidíssimo”).
Segue a  matéria…

——————————-

Caro leitor, com o trecho abaixo, dito por Juan durante nossa conversa, sinta o ritmo, o rumo e o clima desta entrevista organizadamente desorganizada! É apenas uma preparação para o que vem pela frente!

 

“Eu ainda não decidi o que vai ser exatamente, sabe? Porque tem duas séries. A outra, a Mato, título provisório ainda, são paisagens que fiz na Argentina agora. São árvores secas que fazem pontinhas e criaram… sabe quando você olha aquela barreira de árvores? Aí eu dupliquei, retirei algumas coisas e ficou uma faixa. Nessa faixa, aí sim, ao invés do nu entrar em destaque, ele entra quase transparente no meio… desse mato. Então, são duas coisas: um que é cortante e o outro funde. Então está criando uns conceitos meio… Agora quero ver se produzo outras duas com ferro também. Mas não é nenhuma coisa muito profunda, não, como pode parecer…” 

Calma! Persista na leitura! É isso mesmo! A coisa vai se organizando no decorrer da conversa! Com vocês, então, tcham-tcham-tcham: idéias, devaneios, lembranças, reflexões e muito papo furado com o espetacular – e boníssima gente – Juan Esteves!
 

SFC: CRENÇA
JE: Na melhora da fotografia, na continuidade do filme.  

SFC: OLHO X LENTE
JE: Sempre ver tudo. Olho x lente é isso, é você estar sempre olhando tudo, fotografando até sem a câmera para depois registrar, optar por fazer de novo… Esse é o olho-lente. 

SFC: P&B
JE: Sempre, sempre P&B. Não excluo cor, tenho trabalhos em cor também. Mas tenho uma identificação maior com P&B, com tonalidade, com o drama que ele causa, com a diferença que ele faz. O P&B, por mais simples que seja, não é banal como a cor. Eu penso em cor como forma, não como linguagem. Através da cor se diz coisas que você não diz com o P&B. Essa frase é do [Edward] Weston, está nos diários dele. Quando eu tenho a possibilidade de usar a cor como forma, eu uso. Agora mesmo estou trabalhando numa série chamada “Nus-dos-arames”, que pertence a uma suíte de nus, e algumas imagens são em cor. São objetos que se misturam com luz. Tem a série dos arames farpados, a série do mato, do céu… todas se fundem como se formassem outras criaturas, quase que retratos. Eu comecei este trabalho todo em P&B, como se fosse uma gravura. A idéia partiu de uma imagem de um rolo de arame velho que estava jogado no sítio e dali eu fui olhando uns cartemas com essa imagem e vieram umas asas e acabou entrando uma figura humana. Como o muro que estava pendurado também era velho, aparentou o método de açúcar na água forte [processo de gravura no qual queima-se o breu juntamente com o açúcar e isso gera bolhas na placa de metal]. O trabalho se assemelhou a esta técnica. Mexi nos contrastes e foi surgindo uma característica de buril, uma ferramenta da gravura. Então fui incentivado por uma amiga a experimentar a cor nesta série. Era uma série originalmente em P&B, mas passei a criar uma nova série alterando cores, isolando cores, contrastes, transparências, layers, essas coisas todas. Está ficando interessante. Meio pop. 

SFC: ARQUIVOS
JE: Estou reaproveitando coisas antigas que, sozinhas, não tinham sentido. Aprendi isso com o [Josef] Koudelka. Estive com ele na década de 90 . Ele vai fazer parte do meu livro novo de entrevistas, onde há um retrato que fiz do fotógrafo e uma foto do mesmo, além do perfil escrito por mim. Naquele ano ele estava revendo negativos, exclusivamente fazendo isso. Não é o meu caso, eu estou produzindo. Como fotógrafo desde os anos 60, ele fez três livros bárbaros, Ciganos, Exílios e o Chãos, este último, um livrão grande de paisagens panorâmicas, maravilhoso. E eu comecei a fazer isso. “Preciso de uma imagem que se encaixe nesta forma”. Então procuro no meu arquivo e acho. 

SFC: FIGURA HUMANA
JE: Sempre também, ela está em tudo. Eu comecei a brincar com isso como forma e era interessante, criando cartemas, sabe cartemas? Vai duplicando, colando e criando algo. Veio muito deste trabalho que eu expus recentemente em São Paulo, das colagens. Tem ali algumas imagens, mas não é o destaque. E aí eu comecei a fazer isso, mas sempre falta alguma coisa, que é a figura. Aliás, comecei a fotografar porque eu não conseguia me expressar como um artiiiiistaaa… [e a voz vai ficando fininha porque ele sai da mesa para buscar no buffet mais um pãozinho de queijo...] Eu desenhava muita figura, mas não tinha talento para isso. Então acabei indo para a fotografia, para conseguir representar essas figuras. 

[...]
 

Eu trabalho com essa parte gráfica. As exposições “Paulicéia Imaginada” [
inspirada na leitura de Paulicéia Desvairada, de Mario de Andrade] e “Colagens” são trabalhos sobre a cidade, o urbanismo, o caos de São Paulo. Eu reconstruí a cidade através de uma foto. Cada imagem é uma imagem diferente, mas ela parte de uma foto. É feita uma colagem sobre ela mesma. São cenas de tráfego, arquiteturas de ícones paulistanos etc. Tem uma série que pode ser vista no site da Lucia [www.luciaguanaes.com], fotógrafa brasileira que mora na França.  

Em outra ocasião, precisava de imagens para um livro sobre a comemoração de SP. Eu não tinha tempo para produzir nada. Enveredei então numa fase de reciclagem, acho que posso chamar assim. Peguei uma série de fotos que produzi para a exposição do Instituto Moreira Salles, “São Paulo 450 anos”. Era um totem encomendado para o aniversário da cidade. Os temas eram as luzes da cidade (néon, essas coisas…), o trânsito, os outdoors e as vitrines. Tudo noturno. Ficou uma leitura da cidade, do movimento… O totem, feito em duratrans, tinha 6 metros de altura por 1 de largura, e era iluminado por dentro. Foi composto acho que por 300 ou mais fotos. Fez um sucesso danado aquilo. 

Você brinca aqui, mexe ali e vira essa colagem. Comecei a pegar imagens que servissem para isso. Fiz o Municipal, a Estação da Luz, o Copan… Por exemplo, pega essa imagem do bolinho aqui [
aponta para o pãozinho de queijo], recorto aqui e coloco ele para cá, recorto e vou somando até que eu tenha essa mesa inteira de bolinhos… e reconstruo! A Estação da Luz, por exemplo, você olha e é a Estação, você reconhece. Mas começa a ver que ela está inteirinha, ao invés de ter duas torres ela tem seis… Está dando um ibope danado, não sei por quê, mas pegou. A Vivo comprou no final de 2006 umas 400 imagens para dar de brinde. A exposição começou na Graphias Casa da Gravura. A primeira série que eu fiz foi em hot transfer, num papel da Canson, o Debret,  transferindo a imagem a quente. Fica uma película e funde com o papel. Eu já tinha uma exposição lá agendada. Depois, a Vivo tinha uma brecha em sua galeria e me convidou para fazer esta exposição, meio em cima da hora. Eu já tinha esse material pronto e imprimi em Lambda print, maior. Depois foi para a faculdade de fotografia do Senac, e ele foi impresso numa Epson 9800. Fiquei com dois kits dessas imagens e, nessa brincadeira, eles acabaram comprando. Está vendendo bem nas galerias de São Paulo. É meio decorativo. 

SFC: VALORES, MERCADO
JE: A gente está passando por um momento interessante, de crescimento. O mercado está abrindo as portas, as quantidades de leilões tem aumentado muito, principalmente no exterior. Em janeiro de 2006 a Sotheby’s vendeu em um leilão em Amsterdã perto de 1 milhão e meio de dólares só de fotografia. Não é um número tão significativo, tinha Sebastião Salgado, Bresson… Os prints do Salgado foram vendidos a 30 mil reais cada um, do Bresson (sem assinatura) a 300 mil. Depois que ele morreu [2004], houve uma supervalorização do seu trabalho. O Bresson sempre vendeu barato suas fotos. Ele queria assim e nunca fez tiragens limitadas. Era uma crença, ele achava que dessa forma era mais democrático, que todo mundo poderia ter acesso. Não tinha essa coisa de ficar queimando negativo como o Brett Weston fez para valorizar os seus prints. Não era caro comprar fotos dele na Magnum. Aí ele morreu e… o mercado é meio autofágico. Os preços estão crescendo muito. Apesar disso, para o mercado brasileiro, ainda acho que os únicos que têm uma certa cotação hoje no exterior são apenas o Vik [Muniz], o Miguel Rio Branco, um pouquinho do Mário [Cravo]… O Salgado já é um problema diferente, porque não é uma fotografia de “arte”. Ele é um documentarista, então tem momentos da fotografia lindos e outros não! Não é todo mundo que quer colocá-lo na parede… Tem imagens que poderiam, tem aquelas nuvens, aquelas coisas lindas… Essa série nova dele com certeza venderá muito mais por causa dos bichos. Mas se pegar aquela série da África, Sael etc., tem colecionador que compra e põe na mapoteca. Enfim, o mercado tende a melhorar. Em São Paulo está bem animado, as galerias estão aumentando. Acho que tem um comércio intermediário, ou seja, você não vende tão caro mas… Outra coisa, hoje a impressão em jato de tinta está barateando muito o custo. É possível conseguir um custo bom. Eu estava conversando com o Orlando [Azevedo] esses dias, não adianta você gastar um dinheirão para fazer esses prints em fibra que já está difícil e não encontrar quem pague por isso. Então prefiro vender mais barato porque meu custo é menor. 

SFC: IMPRESSÃO EXPOSIÇÃO PRESENÇA
JE: Essas impressões são no papel Sommerselt Velvet, da Epson, um papel de 250 gramas, de algodão puro, ácido free, impresso em Epson 9800, que é uma impressora de boca de 1,10 metros. Ali não é só impressão, é o conjunto do escaneamento, tratamento e impressão. Os negativos foram todos escaneados num scan Cézanne, que é um dos melhores scans. Essas fotos foram impressas a partir dos arquivos usados para o livro, que foram escaneados num tamanho muito maior que o necessário. Fizemos isso já pensando nas cópias da exposição. Só que é um trabalhão, porque no scan vem tudo o que não se vê na ampliação. Perde-se horas limpando o arquivo. Outro livro, o 55 Portraits, foi todo ampliado pelo Lab profissional da Fuji em 2000. Foi o último trabalho manual da Fuji, o último mesmo, encerraram e aposentaram o ampliador. Foi feito em cópia manual colorida em tom sépia, como o livro. Foram dois meses ampliando. Hoje, com o jato de tinta, uma das vantagens é que em dois dias a gente imprime uma exposição. Em vez de ficar desesperado como todo mundo ficava antigamente, enlouquecido na porta dos printers, era um inferno isso! Eu lembro do Bob Wolfenson ampliando fotos no dia de abertura da exposição. Mariozinho [Cravo] se trancou cinco dias para a retrospectiva dele no Masp com o Silvio Pinhatti. O Rubens Fernandes Junior não deixava ninguém entrar no laboratório até o trabalho acabar. Então é um estresse que ninguém merece. Fora ter de lidar com esses chatos: na maioria, são todos uns chatos esses printers manuais. Vivem querendo “interpretar” suas fotos! O pessoal ainda não está entendendo muito bem o printer de impressão a jato de tinta. O printer hoje tem semelhança com o antigo, mas a maior parte do trabalho está sendo feita pelo fotógrafo. Quer dizer, se você entregar o arquivo como você quer, não tem que orientar o cara. Ele enfia no computador, você calibra o seu, ele põe o sistema em como você está visualizando (as pessoas não estão calibrando, por isso a diferenças de cores na impressão). Eu uso o sistema Imac americano. No computador há 15 modos de visualizar. Se você padronizar o seu com o do printer em 10 minutos sai uma cópia de 1 metro, sem erro.  

[...] 
 

É o futuro, não tem como voltar atrás. Eu sou resistente e não pretendo largar o filme. Entrevistei recentemente o Alex Webb. Ele está usando Kodachrome e não pretende parar de usá-lo, não se vê usando digital. Diz que encontra facilmente o Kodachrome em qualquer lugar dos EUA. Eu uso o digital para alguns trabalhos corporativos. Mas para o pessoal, uso sempre a Hasselblad, 6×6 ou 4×5. Os “arautos” brasileiros do digital estão apregoando o fim do filme… Outro dia li uma besteira em um destes manuais de digital, dizia “o mundo é 100% digital”. Tremenda bobagem!  Eu uso bastante o computador, a própria impressão é digital, isso não tem jeito, mas filme é redondo e digital é quadrado, não é preciso se alongar na discussão. Um não é herança do outro. São modos diferentes de ver o mundo. Eu fiz agora um retrato do Alex Webb, fiz também em digital para poder agilizar por causa do fechamento da revista. Mas não deixei de fazer em filme! Em P&B eu tenho que mandar revelar o filme e demora mais. Às vezes o fechamento da revista não permite. Mas no livro de entrevistas com certeza usarei o P&B. Com o digital eu abro na tela e não é a mesma coisa. Apesar de ter feito em raw, resolução 30×40, não tem a mesma textura. Então, no P&B, é uma junção de scan bom, alta definição, bom tratamento, uma boa impressora e um bom papel. A Hahnemüle [
o Webb veio ao Brasil como “garoto propaganda” da Hahnemüle e da impressora HP] tem 12 tipos de papéis de algodão para foto. É impossível não ter um que seja maravilhoso para você. O que eu estou usando é um pouco mais amarelo do que o Sommerset, é um papel de 310 gramas. E tem maiores, tem de 350 gramas, o que já é um cartão. Para o mercado de arte é interessante, possibilita assinar a lápis… 

[...]
 

A impressão do livro Presença também foi bastante cuidadosa. Diferente do meu primeiro, 55 Portraits, que foi um P&B impresso em 4 cores, este foi impresso em duotone. Fiz uns ajustes pessoais. Mudei o preto normal para um “preto Senegal”, que é um preto que tem azul. A segunda cor é um “warm gray 11”, do pantone, que é um cinza quente, pouca coisa, só 11, mas se olhar na luz do dia percebe-se o calorzinho da  imagem. Também fizemos testes com o “cool gray”, que é mais neutro. Foi legal, aprendi muito com o acompanhamento na gráfica (os primeiros livros eu não acompanhei o processo todo). 
 

SFC: CLARO X ESCURO
JE: É uma herança familiar mesmo, desde pequeno eu acompanho essa história espanhola. Família de Aragão, veio para o Brasil no fim do século XIX. Meu bisavô fundou o centro espanhol em Santos. Adoro [Diego] Velázquez, adoro [Jusep] Ribera… todos os que fizeram parte do chamado Século da Luz, por volta de 1600. Eu gosto, talvez inconscientemente, de ver esta leitura. Lá em casa tinha muito quadros, muitos retratos. Meu avô abrigou um pintor espanhol durante muitos anos em sua casa e esse pintor hoje tem um pequeno museu em Madri, com seu nome, o Museu Antonio Hernandéz. Então ele sempre pintou a família inteira. Desde pequenininho eu tive meus tios, meus avós, irmãos dos meus avós, todos retratados. Eu gosto muito dos holandeses também, por exemplo, adoro Vermeer, porque ele tem uma luz muito próxima da entrada lateral que dá um contorno e um volume que me atrai bastante. E também porque tem uma certa facilidade de você trabalhar. Usei muito na primeira metade do meu trabalho como retratista, com 35mm. Embora admire também aquela luz redonda do Avedon. Como aquele fundo branco, sem nenhuma sombra, eu acho bonito também. Eu não me prendo, “tudo tem que ser assim”. É uma formatação que você pode achar conveniente ou não. É como a lente: em alguns anos descobri que a 50 é a “minha” lente. Quando eu tinha a M6, 35mm, só usava 50. Tive todas, mas só fiquei na 50, me identifiquei com aquele formato e com aquele corte. No 6X6, uso basicamente a 150 e a 80, e luz de flash. Tem que ter um fio, um fio que seja você. É fundamental, é isso que vai identificar a sua obra. Tem que experimentar, sim, mas é importante ter uma direção, senão você chuta para todo lado e não cria nada. 

SFC: PRESENÇA AUSÊNCIA
JE: De um montão de gente. Neste livro [Presença, lançamento de 2006], infelizmente, muita gente ficou de fora, gente até de outras épocas. Por exemplo, andando pela cidade ontem eu comprei duas gravuras, no Trovatore. Não sei como encontrei essas duas imagens, eu as estava procurando há muitos anos. Uma é da Edith Behring, uma gravadora do Rio, e outra é uma gravura rara da Anna Letycia Quadros, que está no meu livro. E a Edith Behring é uma gravadora que eu adoro, morreu em 1989, por aí. O Volpi estava vivo na época em que eu já estava no jornal, mas entre ele estar vivo e eu ter o projeto de fazer a foto… não é fácil. Este livro deu muito trabalho, muita gente morando fora do Brasil… E eu fiz por minha conta, eu mesmo o banquei. O patrocínio só veio quando ele estava pronto! E somente para custear tratamento, impressão e a exposição! Ganhei um cachê, mas não cobriu um décimo dos custos que tive! O momento de definir essa questão com a editora e com a fundação foi complicado, porque era algo meio imensurável, “quanto vale?” Mas ele já estava sendo um fardo para mim, tinha que sair logo. 

[...]
 

É mais fácil você publicar um livro sobre as meninas do BBB do que essa gente mais vivida, com detalhes demais, rugas demais… o povo não quer pensar. O Olívio falou que “a arte tem que provocar um estímulo”. A fotografia tem que provocar uma sensação! Se você olhar e ficar indiferente, não tem efeito, não é uma boa foto. Talvez eu não tenha acertado em todas, tem algumas que eu gostaria de ter trabalhado com outras soluções. Com o decorrer do projeto a gente vai ficando mais crítico. Mesmo com uma edição elaborada, mesmo com o cuidado em fazer e refazer, eu achei que eu poderia ter trocado algumas imagens.
 

SFC: MEMÓRIA
JE: O livro se tornou isso mesmo, a partir do momento em que eu começo a buscar gente que faz parte da história da arte e que não podia ficar de fora. Então era a luta para fazer aquele personagem. Em 2003, quando eu estava fazendo o livro da Academia Brasileira de Letras, aproveitei para fotografar todos que moravam no Rio de Janeiro. Tinha uma turma ali que parecia que não ia durar cinco anos! Espero que vivam muito mais! Mas, é inexorável! É um livro que vai continuar, espero! Só estou descansando um pouco disso, mas já estou pautando algumas figuras. 

SFC: [Estes contatos devem ter rendido muitas histórias...]
JE: Muitas! A idéia era transformar isso num filme, mas não tive como produzir. Eu queria fazer um depoimento falado. Até comecei a anotar, mas não é a mesma coisa, porque eles contando é muito melhor. Eu queria filmar eles mesmos contando suas histórias. São mil histórias, tristes e hilárias. Essa idéia surgiu no caminho, por influência do livro do Olívio [Tavares de Araújo], do Farnese [de Andrade]. Com o livro vem um CD, que é um curta-metragem que o Olívio fez com o Farnese, e é maravilhoso. Foi o primeiro filme brasileiro a entrar em Cannes e ganhou o prêmio de melhor curta-metragem em 1974. O Olívio tem filmes fabulosos. Documentou o [Marcello] Grassmann, o [Alfredo] Volpi, o Lívio Abramo… Mas sobre minha idéia do filme, passou, não dá para repetir, para pedir para o cara contar aquela história novamente, do jeito que havia contado para mim na época. Não seria a mesma coisa. Isso vai ficar só para a minha memória mesmo. £

6 dezembro 2008 at 20:21 Deixe um comentário

Preguiça de escrever …. mas bate uma vontade…. então vai pela metade!

Saudade Embola Emboada Arpa Chão Calda Suada Vão
Onda Marcha Limpa Férias Verde Xadrez Limão
Cozinha Lembrança João
Vermelho Botão José
Pasta Quadro Folga Máscara
Preguiça….

20 novembro 2008 at 23:41 Deixe um comentário

Opa! Quase duas mil visitas!

Valeu gente!

20 novembro 2008 at 23:37 Deixe um comentário

Bob Wolfenson POR Danielle Salmória

Como prometido (porém, com um atraso considerável!), minha entrevista com Bob Wolfenson, realizada há um ano e publicada na seção Simplesmente da primeira edição da revista Social Foto Clube, em 2007. Que este material seja útil a alguém ou que sirva como curiosidade sobre este que, quer queira quer não, é um dos maiores nomes da fotografia brasileira contemporânea! Segue….

 

Não pretendemos aqui uma entrevista tradicional, estilo perguntas e respostas. Sem blocos de perguntas pré-fixados, optamos por jogar algumas palavras ao nosso entrevistado com o intuito de conseguir um panorama o mais abrangente possível. Esse jogo de palavras são apenas referências. Os assuntos e as lembranças vão surgindo e formam um leque para que possamos conhecer um pouco melhor a vida desses grandes fotógrafos!

Arte: Difícil, não? Durante muitos anos, antes da década de 80 principalmente, a fotografia não era considerada arte por ser vista como uma representação muito literal da realidade. Eu acho que arte é transformação, é interpretação, é um viés. Era mais uma idéia errada sobre fotografia do que propriamente um problema intrínseco da fotografia. Então, como esse conceito era muito forte, as pessoas não viam a subjetividade que havia ali, em cada fotografia. Isso num senso comum… Os críticos já percebiam esse outro lado.

Há muitos fotógrafos que não se consideram artistas e afirmam isso, fazem disso um statement. Helmut Newton, que foi um grande fotógrafo alemão radicado na França, dizia que as duas piores palavras para a fotografia eram arte e bom gosto. Na verdade ele era exibido em museus e era colecionado, mas ele próprio não se considerava artista. E ele era um “baita” artista. Essa era uma das provocações dele. Ele era um provocador. Quando você tem a etiqueta de arte, quando está num museu, por exemplo, aquilo por si só já é considerado arte. Então ele gostava de desafiar.

Lugar: Lugar não importa nem pra fotografar, nem pra existir, nem pra estar, nem pra ser. O que importa é o teu “em torno”, o que é você neste lugar, o que as pessoas fazem, a emoção que elas sentem… Não acho que sejam feitas fotos melhores em Paris do que em São Paulo, ou no Nordeste do que nos Estados Unidos. Tudo é subjetividade fundida com a realidade, com o contexto.

Caixa: É um bom cenário. Eu encaixoto muito as pessoas.

Antifachada: É uma visão muito pessoal de paisagens que ficaram impregnadas na minha cabeça desde a infância. Foi um nome que eu escolhi pra designar um jeito muito particular e singular de olhar. Antifachada é contra a fachada, é uma oposição à fachada. E eu achei que designava bem o que era aquele trabalho.

Eu faço análise, psicanálise. Foi minha psicanalista quem falou isso pela primeira vez. O termo me ajudou a desenvolver o trabalho porque aí eu comecei a enxergar também a partir dessa idéia de antifachada, disso não ser uma coisa muito real. Apesar de ser um trabalho aparentemente bastante realista, não é: ele é todo cortado, não tem céu, não tem chão, a luz é artificial, meio rarefeita. Eu arrumei aquilo pra ficar a sensação de [ “ahhhhh”, Bob faz-se de sufocado ] você não conseguir respirar.

Moda: Vou parafrasear o fotógrafo Irving Penn. “Toda fotografia de moda é um retrato assim como um retrato é uma fotografia de moda”. Eu não entendo de moda fora do meu contexto, não acompanho, não sou um seguidor. Acho que a moda se realiza no trabalho fotográfico, a moda se comunica no trabalho fotográfico. O final dela vai ser a revista. Então, nessa parte final é que eu entro. Eu não acompanho desde os materiais, os tecidos, as tendências, do que é isso do que é aquilo, não me interesso por isso. Me interessa a moda como possibilidade de imagem, de estar representado dentro de uma imagem.

Atitude: Acho que é um fotógrafo tentar ao máximo fotografar com sua própria personalidade. Ter atitude é assim: é você ser aquilo que você é. Lógico que eu digo isso do alto do meu pedestal, mas eu não cheguei até aqui, você não estaria me entrevistando agora se eu não tivesse isso como um norte: atitude, ética, responsabilidade pelo trabalho, seriedade… e usar isso numa forma não puramente comercial, não colocar o dinheiro na frente das coisas o tempo todo… às vezes é necessário, mas…

Talento: Talento é uma coisa que a pessoa tem mas que também pode ser desenvolvido. Às vezes alguém sem talento desenvolve um talento. Não é uma sentença. Agora… os sem-talento que me perdoem, mas talento é fundamental… pra muita coisa!

Margem: Gosto de estar… Quer dizer, se eu falar que estou à margem é uma aberração, porque mais inserido impossível. Mas eu gosto da idéia de estar perto da margem. Eu gosto da idéia de estar além ou um pouquinho aquém. Apesar que a idéia não significa a realidade. Eu aprecio, gosto, admiro, procuro, busco, vejo… Eu observo isso, essas pessoas que estão na…….

Vulgar: Não sou contra a vulgaridade, não. Eu acho que a vulgaridade às vezes é um valor. Depende muito, né? Todos os momentos de vanguarda que existiram, o próprio Tropicalismo no Brasil mais as vanguardas européias afirmavam, assim como Helmut Newton, que quando você vai contra essa idéia de bom gosto, de bom mocismo, você resbala na vulgaridade. Você tem que afirmar uma certa vulgaridade. Essa é uma vulgaridade. Agora a vulgaridade vulgar, a vulgaridade de consumir, da coisa barata pra vender, pra explorar as pessoas, dessa eu sou completamente contra. Mas a vulgaridade de atitude eu acho muito boa.

Emoção: Vou falar de uma coisa mais conceitual. Eu me emociono muito. A vida sem emoção não é vida. Tudo é emoção. A emoção de estar falando aqui é alguma emoção. O trabalho, o que está ocorrendo quando você está fotografando, o momento em que a pessoa está sendo fotografada… em tudo isso rola uma emoção cada vez diferente. Por mais que eu tenha muitas constantes em meu trabalho, pra evitar muitas emoções (tem o estúdio, tem a luz, tem os meus assistentes… tem o sistema. O sistema é anti-emoção. É uma garantia racional de que suas idéias vão se concretizar.), elas sempre estão no meio: a outra pessoa, as circunstâncias do lugar, a energia que está emanando dali e que provavelmente muda muito desse curso previsto anteriormente. Em 100% dos casos muda o curso. Você nunca consegue realizar uma idéia como havia pensado lá.

Livro: Pensando nos pilares da minha influência, os livros seminais pra mim vão desde literatura brasileira (Machado de Assis, óbvio) passando por Philliph Roth, Isaac Singer… Acabei de ler O Jogador, de Dostoievski e o da Fernanda Young, Vergonha dos Pés.

Filme: Filmes têm muitos. Terra em Transe, do Glauber, eu acho genial. Tarantino eu acho bom. Scorsese. Godard, “Une Femme est une Femme”, “Acossado”… dois filmes geniais. La Guerre est Fini…

[ INTERROMPIDOS PARA UMA FOTO PRA VOGUE .. chique eu, não?! “Só não me pega de boca aberta”, diz Bob! ]

Sonho: [ Toda a imprensa de cobertura do São Paulo Fashion Week almoçando também no Restaurante do MAM. Estar numa mesa junto com o Bob em pleno SPFW  significa várias pausas na entrevista. Depois de sermos interrompidos pela Lilian Pacce, consultora de moda do GNT, me perdi na entrevista e esqueci de voltar à palavra SONHO! Não é desta vez que descobriremos “os sonhos” de Bob...]

[ INTERROMPIDOS MAIS UMA VEZ... AGORA O DIRETOR DO MAM ]

55 x S/Nº? A 55 era um projeto muito utópico. Utópico demais. Sempre tive vontade de fazer uma revista, principalmente quando me sentia muito mal representado nas revistas vigentes. Eu sentia que não só eu, mas que todo mundo era sub-aproveitado. Então, surgiu a oportunidade de fazer uma revista e as coisas foram ganhando uma dimensão. Pessoas foram se agregando, a gente acabou formando um grupo de quatro pessoas pra fazer a 55. E a gente tinha patrocínio, tinha um dinheiro, tinha anúncio. Aí fizemos a maluquice daqueles dois números que ficaram como marco, uma revista que ninguém esquece. Eu acho que o conteúdo ainda era fraco, mas a forma era genial. A S/Nº tem muito mais conteúdo que a 55, mas a 55 tinha uma forma melhor do que a S/Nº, até porque o conceito era esse: uma revista anárquica, totalmente experimental. A S/Nº já é muito mais dentro do clássico, dos parâmetros que deve ser uma revista. A 55 não era uma revista, era um objeto. O Millôr escreveu sobre a 55 número 1, a capa verde, dizendo que era uma revista belíssima… até a primeira briga! E foi premonitório!

P&B x Colorido? Eu já fui P&B, hoje sou cor. Antigamente eu tinha uma dificuldade técnica em resolver a cor. Me incomodava a coisa muito realista que a cor dava, era muito retrato da realidade. E pra criar uma magia, uma coisa que interessasse as pessoas e que me interessasse, era difícil. Eu achava complicado. Mas hoje em dia não acho. Até gosto da coisa bem realista da cor.

EXCERTOS

Uma idéia que defendo bastante é a de você ser fotógrafo “pobre”, “fazedor de imagens”, geral. E fotografia de moda é uma das coisas que eu faço, mas eu gosto da estrutura um pouco de discos. Caetano é um bom exemplo pra mim, porque ele canta uma música em inglês, ele canta um samba, ele canta uma balada… eu gosto dessa estrutura, entendeu? Se eu fizer um livro quero que ele tenha esse caráter. Não gosto muito de esgotar um tema. Já fiz livros temáticos. Daqui pra frente não os farei. Eu quero poder ser fragmento.

 

Quando alguém pode se considerar fotógrafo? Quando usa a fotografia como forma de expressão. É muito difícil essa questão da relação com o público. Quando se estabelece uma relação entre o que você deseja e o que o outro está vendo. Tem que ter qualidade pra você passar a mensagem. Um painel todo borrado… você pode fazer isso depois. Picasso pintava maravilhosamente, sabia todas as técnicas da pintura e depois desconstruiu o processo dele… tem muita gente que já começa borrando, dizem “nossa, que sacada”, sei lá o quê… Tem um senso comum da “sacada” também, da coisa fácil, surrealismo barato de esquina. Isso tem de graça por aí…

 

Vou parafrasear David Bailey, “não há tantas fotos ruins quanto as fotos ruins de moda”. Isso me irrita muito. Porque foto ruim de reportagem é uma coisa, o cara não é um pretensioso. Já o fotógrafo de moda é pretensioso, sempre é. E tem que ser mesmo. E quando a pretensão é pífia… isso me irrita.

 

Eu gosto quando estabeleço uma relação com aquilo, quando a fotografia me emociona, me toca, me transporta, me faz viajar, me move do lugar, me deixa perplexo, mexe comigo. Tem muita coisa que me emociona e muito. Muitos livros, muitos fotógrafos, muitas exposições.

13 setembro 2008 at 13:51 2 comentários

Boca silenciosa…

Sexta-feira. Final de expediente. Todos cansados. Medo do escuro.

27 agosto 2008 at 16:34 Deixe um comentário

É só o tempo que não volta…

“A criança sofre, o adolescente sofre. De onde nos vêm, então, a saudade e a ternura pelos anos juvenis? Talvez porque nossa fraqueza fosse uma força latente e em nós houvesse o germe de uma plenitude a se realizar. Não havia ainda o constrangimento dos limites, nosso diálogo com os seres era aberto, infinito. A percepção era uma aventura; como um animal descuidado, brincávamos fora da jaula do estereótipo. E assim foi o primeiro encontro da criança com o mar, com o girassol, com a asa na luz. Ficou no adulto a nostalgia dos sentidos novos.”

Ontem assisti à colação de grau de um primo. Não faz taaanto tempo da minha formatura (uns cinco anos), mas durante toda a cerimônia fiquei com a impressão de que muita coisa mudou e que hoje há limites que antes não existiam. Profissionalmente e pessoalmente. Fisicamente e emocionalmente. Minha liberdade de ir e vir - principalmente em relação a sonhos, projetos e pensamentos -  parece não ser mais a mesma. Há uma preocupação, latente, chata, em não errar mais. Esse é o limite. E as palavras de Ecléa Bosi (citação acima), em Memória e Sociedade: lembrança de velhos (p. 83), cabem muito bem aí: há um constrangimento em perceber esses limites.

São tantos sonhos anunciados aos quatro ventos que simplesmente foram se desfazendo no ar, tantas decepções, tantas mudanças na rotina, tantos projetos escancaradamente falidos. A impressão – deve ser só impressão! – é que, por conta de todos esses nãos da vida (impostos pela ordem natural das coisas, ou impostos sem nosso consentimento mesmo ou ainda criados por nós mesmos), somos “analisados” e “definidos” por quem nos cerca e, pior, por nós mesmos. Certamente isso ocorre, lógico. Afinal, somos feitos daquilo que cativamos (e, talvez, também daquilo que “cativam em nós”)! Mas como é constrangedor!

Então talvez eu tenha sentido inveja daqueles formandos. Parece que ainda têm toda uma vida pela frente. Sei que estou exagerando, não sou nenhum ser jurássico, nem balzaquiana ainda, mas já com o peso de algumas – mesmo que poucas – limitações!

Não é pra ser um desabafo desanimador. Pretendo jamais desanimar os leitores da Minha Aldeia! São apenas algumas bobagens que passaram por minha caxola cheinha de caraminholas… ainda bem que essas bobagens vêm sempre acompanhas de muita paixão pela vida! E isso já basta pra seguir em frente, tentando sempre superar todo e qualquer limite!!! Rs…

Um abração em todos!
Dani

22 agosto 2008 at 11:55 Deixe um comentário

A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado

17 agosto 2008 at 12:46 Deixe um comentário

em atualização

15 agosto 2008 at 17:53 Deixe um comentário

E se a alma perguntar: quão mais longe?

Deves responder: do outro lado do rio,

Não este, o outro, logo adiante.

Alejandra Pizarnik

11 agosto 2008 at 12:12 Deixe um comentário

Uma brisa de paixão… ?!


… Lua Cheia fica doida
Lua Cheia vamos namorar
Lua Nova vida boa
Lua Nova ela quer casar…

Lua Cheia (de Léo Henkin), Papas da Língua.


Nanets, pra vc, minha amiga!
Pra vc, pra mim e pra nossa eterna alegria de viver,
seja nas águas daqui, seja nas águas jamaicanas!
FOTO: Danielle Cristina, Guaratuba-PR, julho 2008.

20 julho 2008 at 16:28 1 comentário

“Simplicidade é isso:

… quando o coração busca uma coisa só.”

Amigos, texto bom do Rubem Alves no site do Gabriel Chalita. Aliás, o site todo é recheado de coisas boas, de um pouco de luz! Vale a pena!
Bjooos a todos!

16 julho 2008 at 17:37 Deixe um comentário

Rotinas. E não é um papo-de-doido…

Mãe véio! Mãe veia. Mão. Mãe véia.
Um varal de vicissitudes.
Vasto, vago.
E venta, ainda.
Como veleja por virassóis.
(…)
Mãe, escrevê, mãe. Mãe, escrevê tuudo, mãe. Mãe, escrevê maais. Mãe véio!
Mooõe, não dêza mais, mõe! Qué bincá!

DC e Fê, ontem, ao acordar!

10 julho 2008 at 14:06 Deixe um comentário

Barthes é Perfeito

Estou fascinada por este carinha incrível chamado Barthes.
Roland Barthes está fundamentando com tal maestria e perfeição minha monografia [de conclusão de pós-graduação] que eu jamais suporia que encontraria tanto e tão perfeito respaldo para minhas idéias.  Em suas narrativas, parece que sinto Barthes sentindo. Parece que me torno Barthes, como se me embrenhasse por entre suas veias, ainda vivas, e passasse a sentir, ver e ouvir tudo o que ele narrou sentir, ver e ouvir.  Barthes está ordenando e preenchendo minhas idéias e esse complemento está sendo maravilhoso. Por isso achei que deveria escrever algo sobre esse Pensador da Vida em todas as suas nuances. Todas mesmo. No mínimo detalhe do meu dia-a-dia, encontro algo de Barthes. Por exemplo, neste final de semana que passou eu estava com muita vontade de jogar conversa fora em algum barzinho da cidade, rever os amigos e beber uma caipirinha boa pra espantar o frio! Mas, ao mesmo tempo, também era grande a vontade de fazer nada, de ficar em casa, de pijama, com os pés pro alto, só lendo, lendo, lendo… ao som de uma musiquinha boa que me embriagasse e espantasse o frio! Uma briga interna. Resposta para isso? Barthes me deu! ”Que corpo? Temos vários. Tenho um corpo digestivo, um corpo nauseabundo, um corpo com dor de cabeça, e assim por diante: sexual, muscular, humoral e sobretudo emotivo. Por outro lado (…) tenho um corpo parisiense (esbelto, fatigado) e um corpo camponês (repousado, pesado)” (Barthes, 1975, p. 70-71). Perfeito!

7 julho 2008 at 16:27 1 comentário

Hora do Almoço…

Tangerina Ponkan meia-estação: bastante popular, apresenta frutos grandes, fáceis de descascar, com gomos que também se separam facilmente. Tem paladar bastante agradável.

4 julho 2008 at 13:24 Deixe um comentário

“Quando se pensa, ouve-se e…

… isso impede de achar a solução.”

Baita alívio escutar essa frase neste sábado, da boca de Didi, enquanto esperávamos por Godot! Que chatice esperar, esperar, esperar… mas… bah! Esse é o melhor! É isso a vida: esperar pela festa! Esta é a melhor parte! A única parte.

 


IMPERDÍVEL… Esperando Godot, até 29 de junho, de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 19h, no Guaira.

16 junho 2008 at 15:28 Deixe um comentário

Deusa Clarice: obrigada, obrigada, obrigada!

“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.” (Clarice Lispector)

13 junho 2008 at 14:24 1 comentário

Pra quem não gosta de Caetano

Ou odeia-se ou ama-se. Com Caetano Veloso não tem meio termo. E eu estava entre os partidários do primeiro time! Estava. Depois de assistir ao show Un Caballero de Fina Estampa tive de me render ao grupo dos que o veneram! O dvd não é nenhuma novidade, foi gravado em 1995 num show no Metropolitan, no Rio de Janeiro, e lançado em 2001. Mesmo assim, vale a pena indicar!

Caetano está incrível e o repertório divino, mesclando músicas cantadas em espanhol com canções brasileiras, inclusive releituras de Orlando Silva, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Fazem parte Lábios Que Beijei, Canção de Amor, O Samba e o Tango, Haiti, Vuelvo Al Sur, La Barca, além das clássicas e maravilhosas Chega De Saudade, O Leãozinho, Itapuã e um arrombo de palco com Soy Loco Por Ti, América!

Há quem diga que se existe uma regra na carreira de Caetano Veloso é a de não ter regra alguma. Talvez seja por isso, uma espécie de provocação adolescente, que ele faz exatamente o oposto do que esperam dele. O disco Fina Estampa, de 1994, inspirador do show do dvd, é um exemplo: antes mesmo de ser lançado, foi previsto pela crítica como um fiasco de vendas e de público. De tanto sucesso, rendeu, além do dvd, um cd ao vivo!

Filmado em película de cinema e gravado em som digital, Un Caballero de Fina Estampa é um bem-composto de música, poesia, pintura, excelente direção e fotografia e todo tipo de arte ao qual levar a sensibilidade do público. Pra começar, logo na capa, um fragmento de um mural pintado pelo artista mexicano Diego Rivera. Cultura completa!

Este e outros textos meus comporão o Jornal El Domingez, distribuído no Café Domingez, nova casa da boa música e da boa comida, recheadas de cultura, que abrirá em breve no Largo da Ordem (Dr, Muricy, 1111)!

11 junho 2008 at 15:55 Deixe um comentário

Dia do Pão

O pão é um alimento sagrado. É o alimento do compartilhar, da união, da oferenda. E, talvez, melhor que saboreá-lo, seja fazê-lo! Uma sensação gostosa de produção, de ver crescer algo ao qual você se dedicou, pelo qual você literalmente colocou a mão na massa! E aquele cheirinho de pão saindo do forno tomando conta da casa? Hummm… tudo de bom!
Em homenagem ao Dia do Pão, nove de junho, publico minha famosa receita de pão, a pedido de muitas amigas! Meninas (e meninos, por que não?), mãos à massa! 

INGREDIENTES:
2 tabletes de fermento biológico (15g cada)
3 copos de leite morno [prefiro integral ou de soja]
1/2 copo de óleo [de oliva é mais saudável!]
2 ovos [os caipiras me dão a sensação de serem mais saborosos...]
3 colheres (sopa) de açúcar [uso o mascavo]
1 colher (sopa) de sal [o marinho também é mais saudável]
cerca de 1kg de farinha de trigo

MODO DE FAZER:
Coloque os seis primeiros ingredientes no copo do liquidificador e bata um pouco. Junte duas xícaras de trigo e bata bem.
Derrame a massa batida em uma tigela grande e vá acrescentando mais farinha até a massa ficar elástica, desgrudando das mãos e das bordas da tigela.
Reparta em quatro porções e coloque em quatro fôrmas para pão, tamanho médio, untadas. Asse em forno moderado até que sinta o aroma de suas broas (cerca de 40 min.)! Ao primeiro sinal do cheirinho delicioso de pão, aumente para a temperatura máxima do forno, até dourar.

Esta receita rende quatro fôrmas de pães: uma para você e mais três para presentear – com muito amor e sabor – as pessoas queridas!

9 junho 2008 at 12:41 Deixe um comentário

Sexta-feira…

…11 da noite. Entro no carro. Ligo o som. Não recordo a estação que escolho… música latina. Sem dúvida da melhor qualidade. Entre outros, Chico Alvarez. E não precisou mais de um segundo para que aquelas melodias cubanas me inebriassem. Desço do carro, abro a porta e estou em casa. Cansada. No curto trajeto, muita dança com alma e olhar latinos de Frida Kahlo.

8 junho 2008 at 12:35 Deixe um comentário

Presente…

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão,
principalmente quando uma Lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento,
e que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

28 maio 2008 at 19:15 2 comentários

E a bananeira vingou!

Sensação de conclusão…

Já tive um filho. Já plantei uma árvore [duas, na verdade. A primeira, da qual não me lembro a espécie, foi no clube, quando criança, e está lá até hoje! A segunda, minha bananeira, no quintal de casa. Um pezinho discreto mas já dando ares de grandeza, uma folha imensa seguindo sua missão!]. E meu livro, se Deus quiser, está a caminho!

(…)

Que conclusão que nada… quero mais dois: um de barriga e outro de coração! Quero muitas mais, de todas as cores, aromas, texturas e gostos. Quero que venham vários, que acrescentem e que inspirem!

[Mais um desabafo... na verdade, só pra me gabar de minha bananeira!!!]

26 maio 2008 at 14:51 2 comentários

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