Posts filed under 'literatura'
Menino Grande e a Caixa dos Dias
Menino Grande tinha uma agenda. Um pedaço de papel onde anotava todos os seus compromissos. Sempre à noitinha, antes de dormir, sentava-se à beira da cama e listava:
- compras no mercado
- relatório pro chefe
- carta no correio
- ligar para Tia Juju
- vacina do cachorro
Porém, de nada, ou quase nada, adiantava sua agendinha. Menino Grande estava sempre no Mundo da Lua, como dizia sua mãe. Os dias iam passando, as páginas da pequena agenda virando, e sua listinha apenas crescendo, acumulando tarefas por fazer.
- compras no mercado
- relatório pro chefe
- carta no correio
- ligar para Tia Juju
- vacina do cachorro
- pagar conta de luz
- aniversário da Rosinha
- emprestar livro pro JP
Ele até lia suas anotações durante o dia, mas com a cabeça nas nuvens, logo as esquecia! Esquecia na cozinha a lista de compras do mercado; esquecia onde havia anotado o número de telefone da Tia Juju; esquecia em qual pasta havia guardado o relatório da reunião; esquecia do cafuné do cachorro e, assim, esquecia de levá-lo ao veterinário; esquecia de pegar o livro na prateleira; esquecia de escrever a carta; esquecia de separar o dinheiro para pagar a conta; esquecia de comprar um presente para a Rosinha…
Até que um dia, cansado de tanto esquecimento, Menino Grande pensou que seria muito mais fácil se os dias virassem caixas! Na caixa do dia 1º ele guardaria a lista de compras do mercado. Dia 2 era o dia da reunião, então guardaria o relatório nessa caixa. Dia 5 era dia de pagamento, então já deixaria ali o dinheiro para pagar a conta! No dia 14 sobraria tempo para ir ao correio, então deixaria naquela caixa o papel e o lápis! Ah, já deixaria o cachorro na caixa do dia 20, pois nesse dia estava marcada a vacina no veterinário!
Por entre as caixas gigantes, do tamanho mesmo dos dias, Menino Grande percorreria! Pularia de uma para outra, a cada 24 horas. E assim seriam seus dias: QUADRICULADOS, BEM ORGANIZADOS E SEMPRE EM DIA!
1 comment 3 Julho 2009
Deusa Clarice: obrigada, obrigada, obrigada!
“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.” (Clarice Lispector)
1 comment 13 Junho 2008
Para mim, para minha mãe, para a mãe de minha mãe, para a mãe da mãe de…
Hoje (05 de maio) é aniversário de meu filho, Felipe. Dois aninhos! Em minha oração antes de dormir, ontem, peguei o livro “Uma Idéia Toda Azul” e o abri aleatoriamente, mentalizando que o conto em que eu abrisse seria uma homenagem minha a ele, algo que lhe enviasse boas energias! O escolhido por minhas mãos foi “Um Espinho de Marfim”.
Durante a caçada do rei, comecei a entender o recado. Eu, a princesa. Meu menino, o unicórnio. A vida, o rei. “Que animal era aquele de olhos tão mansos retido pela artimanha de suas tranças?” (Colasanti, 2006, p. 26)
Logo despertou minha atenção a prisão do unicórnio com a rede de ouro feita dos próprios cabelos da mãe, ops, da princesa. Uma prisão bonita, mas ainda uma prisão. O amor, quando muito muito cheio de cuidados e proteção, quando dono, também aprisiona.
Quanto demorou a princesa para conhecer o unicórnio?
Quantos dias foram precisos para amá-lo?
(Colasanti, 2006, p. 26)
Como jamais conhecer o menino?
(Lispector, 1981, p. 142)
Do contrário da narradora da felicidade clandestina de Clarice, a princesa de Marina não precisou esperar o tempo de o unicórnio se deteriorar para conhecê-lo. Não precisou se afastar do animal. Ela se aproximou, olhou bem em seus olhos e o conhecimento – ou reconhecimento – veio de imediato. Com ele, o amor.
Em Marina, bastou o olhar. E o olhar com o coração. O unicórnio, livremente, fez-se entender pelo olhar, unicamente. Em Clarice, o olhar era inútil. O menino, em sacrifício próprio… “com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar” (Lispector, 1981, p. 139)
O sacrifício presente nas três obras: na minha, na de Marina e na de Clarice. O sacrifício de três mães em nome de seus filhos, cumprindo a missão que o coração as impõe: amá-los acima de tudo, acima de si mesmas. Três mães em vida, em prosa e em poesia. Uma não menos mágica que a outra.
Leia:
COLASANTI, Marina. Um Espinho de Marfim, em Uma Idéia Toda Azul. São Paulo: Global, 2006.
LISPECTOR, Clarice. Menino a Bico de Pena, em Felicidade Clandestina. 1981.
1 comment 6 Maio 2008