ALDEIA
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo…
Por isso a minha aldeia é tão pequena como outra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tama nho da minha altura…
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
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EXTRA
.:. Fotografia .:.
O que eu havia visto de tão tranqüilo e vasto e estrangeiro nas minhas fotografias escuras e sorridentes – aquilo estava pela primeira vez fora de mim e ao meu inteiro alcance, incompreensível mas ao meu alcance.
Clarice Lispector (1972:75)
.:. Meu olhar ? .:.
Fotográfico, em sua essência – por menor que seja a experiência técnica! É inevitável minha sensibilidade para ver o mundo (coisa minha, não precisa tentar entender…).
Já vi diversas pessoas expressarem sua paixão pela fotografia. Eu, além de também ser uma dessas apaixonadas pela imagem em si, tenho uma paixão muito maior pelo que ela representa. Basicamente, pelo que ela induz.
Subjetividade. Sempre gostei dessa palavra. E fotografia, para mim, é isso. Uma imagem que mostra algo e que faz viajar, que faz devanear.
Que viaje pelas cores, intensas ou pacatas. Que viaje pelas formas, retas, circulares, descoordenadas. Que viaje pela textura, áspera ou lisa. Que viaje pelo cheiro, agradável ou não. Que viaje pelo sonho. Sonho este de oportunidades e de caminhos. Isto é o que desejo. Esta é minha idéia e a causa de minha perseguição por esta arte.
Bons passeios!
.:. A preferida .:.
Soneto de Orfeu
São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão,
principalmente quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer.
Aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento
tão cheia de pudor que vive nua.
Vinicius de Moraes
.:. Entrevista .:.
(…) O que é ir directo na fotografia? É aceitar a fotografia como uma forma de expressão tão moderna, tão evidente, que logo que nasce já é o seu próprio registo. Uma pintura ainda pode pedir algo mais – fotografem-me ou reproduzam-me. Mas a fotografia é imediata e é, ao mesmo tempo, a sua própria eternidade. A fotografia é o flagrante eterno.
(…) Mas para si o conceito de surrealismo continua a fazer sentido? O que é para si o surrealismo? É a descoberta de que a realidade não é só uma, no inconsciente estão coisas muito mais autênticas do que o resto. A realidade não acaba em si, nela mesma, podemos criá-la e recriá-la de novo. É entrar decididamente no invisível do lado do visível. Sem medo e com uma liberdade total e com um instinto poético. O surrealismo é poesia: é quando se sabe que se é feliz e se encontra a linguagem adequada. Não existe mais nada – é a coisa mais fácil do mundo, a poesia. Não basta falar de liberdade. Quando vejo uma pessoa falar muito de liberdade sinto que ela está presa. Nós nascemos livres, não temos que lutar pela liberdade, temos de lutar é para não sermos presos.
Fernando Lemos
Fonte: www.instituto-camoes.pt/arquivos/artes/flemos.htm
Lisboa · 02 de Janeiro de 2002.
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1. Pena | 29 Maio 2008 at 10:07
É encantadora a sua aldeia-mundi. Passear por ela nos faz muitíssimo bem. Muito obrigado por compartilhar tanta beleza.