“O compositor não é de confiança”
15 fevereiro 2011 at 02:33 2 comentários
A moça me procurou… queria uma música pro filme dela. Eu falei “olha, o autor não é de confiança… posso tentar fazer a sua música”. “Ah não” – ela disse – “preciso saber agora se você vai fazer ou não…” Eu falei “então, honestamente, eu não posso prometer porque…”
Ficou zangada comigo, e perguntou “como é que pode ser ‘honestamente’ se ‘não é de confiança’?” Expliquei “honestamente falo eu: o compositor não é de confiança. Eu, Chico, sou honesto. O compositor Chico absolutamente não é de confiança.”
Então, hoje em dia, quando me pedem uma música pra um filme eu digo “vou tentar”. Não posso jurar que vá fazer. A música pode sair ou não sair.
Às vezes me dá uma vontade de tomar emprestado esse pensamento do Chico Buarque e repeti-lo a algumas pessoas… Não que me falte honestidade (muito pelo contrário!) nem capacidade (quem faz o que ama e se dedica a melhorar se supera um pouquinho mais a cada trabalho!), mas o trabalho criativo tem dessas coisas. Há dias em que tudo flui, as idéias bailam de vento em popa, o trabalho rende divinamente e o resultado encanta. Mas há dias que, por ‘n’ fatores, “aquela” foto não sai. E isso PODE ser uma decepção tanto para o fotógrafo quanto para o cliente, caso a exigência deste esteja equivalente à exigência do fotógrafo.
É a única luz possível no local que não está favorecendo o ângulo ideal, é o humor instável do fotografado, é a intervenção de terceiros, são os fenômenos naturais, é a cólica da fotógrafa, a bolha no pé do fotógrafo, a formiga que picou e ardeu, o cenário que despencou, o figurino que amassou, o tempo que resolveu correr mais depressa do que deveria… enfim… a foto “perfeita” depende de um conjunto de situações! A decoração de um evento permite um tipo de fotografia que outra decoração não permite, a fotogenia de um cliente permite um estilo de foto diferente da fotogenia do outro cliente, assim como o humor, a personalidade, a abertura que o cliente dá ao ensaio, a empatia que acontece ou não entre fotógrafo e fotografado etc. Cada trabalho é um trabalho distinto, não há uma foto igual a outra, portanto, as referências devem ser comedidas.
É uma sentença positiva do poder errar, do permitir-se decepcionar, do aceitar as circunstâncias de tempo e espaço e todas as suas interferências. É um tiro no pé escrever essa afirmação aqui no meu blog, mas me traz um alívio incrível: “a fotógrafa” – assim como Chico Buarque – “não é de confiança”!
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1. Danielle Cristina | 15 fevereiro 2011 às 02:35
* Trecho do depoimento de Chico no documentário “Cinema”.
2. Ruy | 10 março 2011 às 15:09
É, ser ou não ser …