Bob Wolfenson POR Danielle Salmória
13 Setembro 2008
Como prometido (porém, com um atraso considerável!), minha entrevista com Bob Wolfenson, realizada há um ano e publicada na seção Simplesmente da primeira edição da revista Social Foto Clube, em 2007. Que este material seja útil a alguém ou que sirva como curiosidade sobre este que, quer queira quer não, é um dos maiores nomes da fotografia brasileira contemporânea! Segue….
Não pretendemos aqui uma entrevista tradicional, estilo perguntas e respostas. Sem blocos de perguntas pré-fixados, optamos por jogar algumas palavras ao nosso entrevistado com o intuito de conseguir um panorama o mais abrangente possível. Esse jogo de palavras são apenas referências. Os assuntos e as lembranças vão surgindo e formam um leque para que possamos conhecer um pouco melhor a vida desses grandes fotógrafos!
Arte: Difícil, não? Durante muitos anos, antes da década de 80 principalmente, a fotografia não era considerada arte por ser vista como uma representação muito literal da realidade. Eu acho que arte é transformação, é interpretação, é um viés. Era mais uma idéia errada sobre fotografia do que propriamente um problema intrínseco da fotografia. Então, como esse conceito era muito forte, as pessoas não viam a subjetividade que havia ali, em cada fotografia. Isso num senso comum… Os críticos já percebiam esse outro lado.
Há muitos fotógrafos que não se consideram artistas e afirmam isso, fazem disso um statement. Helmut Newton, que foi um grande fotógrafo alemão radicado na França, dizia que as duas piores palavras para a fotografia eram arte e bom gosto. Na verdade ele era exibido em museus e era colecionado, mas ele próprio não se considerava artista. E ele era um “baita” artista. Essa era uma das provocações dele. Ele era um provocador. Quando você tem a etiqueta de arte, quando está num museu, por exemplo, aquilo por si só já é considerado arte. Então ele gostava de desafiar.
Lugar: Lugar não importa nem pra fotografar, nem pra existir, nem pra estar, nem pra ser. O que importa é o teu “em torno”, o que é você neste lugar, o que as pessoas fazem, a emoção que elas sentem… Não acho que sejam feitas fotos melhores em Paris do que em São Paulo, ou no Nordeste do que nos Estados Unidos. Tudo é subjetividade fundida com a realidade, com o contexto.
Caixa: É um bom cenário. Eu encaixoto muito as pessoas.
Antifachada: É uma visão muito pessoal de paisagens que ficaram impregnadas na minha cabeça desde a infância. Foi um nome que eu escolhi pra designar um jeito muito particular e singular de olhar. Antifachada é contra a fachada, é uma oposição à fachada. E eu achei que designava bem o que era aquele trabalho.
Eu faço análise, psicanálise. Foi minha psicanalista quem falou isso pela primeira vez. O termo me ajudou a desenvolver o trabalho porque aí eu comecei a enxergar também a partir dessa idéia de antifachada, disso não ser uma coisa muito real. Apesar de ser um trabalho aparentemente bastante realista, não é: ele é todo cortado, não tem céu, não tem chão, a luz é artificial, meio rarefeita. Eu arrumei aquilo pra ficar a sensação de [ “ahhhhh”, Bob faz-se de sufocado ] você não conseguir respirar.
Moda: Vou parafrasear o fotógrafo Irving Penn. “Toda fotografia de moda é um retrato assim como um retrato é uma fotografia de moda”. Eu não entendo de moda fora do meu contexto, não acompanho, não sou um seguidor. Acho que a moda se realiza no trabalho fotográfico, a moda se comunica no trabalho fotográfico. O final dela vai ser a revista. Então, nessa parte final é que eu entro. Eu não acompanho desde os materiais, os tecidos, as tendências, do que é isso do que é aquilo, não me interesso por isso. Me interessa a moda como possibilidade de imagem, de estar representado dentro de uma imagem.
Atitude: Acho que é um fotógrafo tentar ao máximo fotografar com sua própria personalidade. Ter atitude é assim: é você ser aquilo que você é. Lógico que eu digo isso do alto do meu pedestal, mas eu não cheguei até aqui, você não estaria me entrevistando agora se eu não tivesse isso como um norte: atitude, ética, responsabilidade pelo trabalho, seriedade… e usar isso numa forma não puramente comercial, não colocar o dinheiro na frente das coisas o tempo todo… às vezes é necessário, mas…
Talento: Talento é uma coisa que a pessoa tem mas que também pode ser desenvolvido. Às vezes alguém sem talento desenvolve um talento. Não é uma sentença. Agora… os sem-talento que me perdoem, mas talento é fundamental… pra muita coisa!
Margem: Gosto de estar… Quer dizer, se eu falar que estou à margem é uma aberração, porque mais inserido impossível. Mas eu gosto da idéia de estar perto da margem. Eu gosto da idéia de estar além ou um pouquinho aquém. Apesar que a idéia não significa a realidade. Eu aprecio, gosto, admiro, procuro, busco, vejo… Eu observo isso, essas pessoas que estão na…….
Vulgar: Não sou contra a vulgaridade, não. Eu acho que a vulgaridade às vezes é um valor. Depende muito, né? Todos os momentos de vanguarda que existiram, o próprio Tropicalismo no Brasil mais as vanguardas européias afirmavam, assim como Helmut Newton, que quando você vai contra essa idéia de bom gosto, de bom mocismo, você resbala na vulgaridade. Você tem que afirmar uma certa vulgaridade. Essa é uma vulgaridade. Agora a vulgaridade vulgar, a vulgaridade de consumir, da coisa barata pra vender, pra explorar as pessoas, dessa eu sou completamente contra. Mas a vulgaridade de atitude eu acho muito boa.
Emoção: Vou falar de uma coisa mais conceitual. Eu me emociono muito. A vida sem emoção não é vida. Tudo é emoção. A emoção de estar falando aqui é alguma emoção. O trabalho, o que está ocorrendo quando você está fotografando, o momento em que a pessoa está sendo fotografada… em tudo isso rola uma emoção cada vez diferente. Por mais que eu tenha muitas constantes em meu trabalho, pra evitar muitas emoções (tem o estúdio, tem a luz, tem os meus assistentes… tem o sistema. O sistema é anti-emoção. É uma garantia racional de que suas idéias vão se concretizar.), elas sempre estão no meio: a outra pessoa, as circunstâncias do lugar, a energia que está emanando dali e que provavelmente muda muito desse curso previsto anteriormente. Em 100% dos casos muda o curso. Você nunca consegue realizar uma idéia como havia pensado lá.
Livro: Pensando nos pilares da minha influência, os livros seminais pra mim vão desde literatura brasileira (Machado de Assis, óbvio) passando por Philliph Roth, Isaac Singer… Acabei de ler O Jogador, de Dostoievski e o da Fernanda Young, Vergonha dos Pés.
Filme: Filmes têm muitos. Terra em Transe, do Glauber, eu acho genial. Tarantino eu acho bom. Scorsese. Godard, “Une Femme est une Femme”, “Acossado”… dois filmes geniais. La Guerre est Fini…
[ INTERROMPIDOS PARA UMA FOTO PRA VOGUE .. chique eu, não?! “Só não me pega de boca aberta”, diz Bob! ]
Sonho: [ Toda a imprensa de cobertura do São Paulo Fashion Week almoçando também no Restaurante do MAM. Estar numa mesa junto com o Bob em pleno SPFW significa várias pausas na entrevista. Depois de sermos interrompidos pela Lilian Pacce, consultora de moda do GNT, me perdi na entrevista e esqueci de voltar à palavra SONHO! Não é desta vez que descobriremos “os sonhos” de Bob...]
[ INTERROMPIDOS MAIS UMA VEZ... AGORA O DIRETOR DO MAM ]
55 x S/Nº? A 55 era um projeto muito utópico. Utópico demais. Sempre tive vontade de fazer uma revista, principalmente quando me sentia muito mal representado nas revistas vigentes. Eu sentia que não só eu, mas que todo mundo era sub-aproveitado. Então, surgiu a oportunidade de fazer uma revista e as coisas foram ganhando uma dimensão. Pessoas foram se agregando, a gente acabou formando um grupo de quatro pessoas pra fazer a 55. E a gente tinha patrocínio, tinha um dinheiro, tinha anúncio. Aí fizemos a maluquice daqueles dois números que ficaram como marco, uma revista que ninguém esquece. Eu acho que o conteúdo ainda era fraco, mas a forma era genial. A S/Nº tem muito mais conteúdo que a 55, mas a 55 tinha uma forma melhor do que a S/Nº, até porque o conceito era esse: uma revista anárquica, totalmente experimental. A S/Nº já é muito mais dentro do clássico, dos parâmetros que deve ser uma revista. A 55 não era uma revista, era um objeto. O Millôr escreveu sobre a 55 número 1, a capa verde, dizendo que era uma revista belíssima… até a primeira briga! E foi premonitório!
P&B x Colorido? Eu já fui P&B, hoje sou cor. Antigamente eu tinha uma dificuldade técnica em resolver a cor. Me incomodava a coisa muito realista que a cor dava, era muito retrato da realidade. E pra criar uma magia, uma coisa que interessasse as pessoas e que me interessasse, era difícil. Eu achava complicado. Mas hoje em dia não acho. Até gosto da coisa bem realista da cor.
EXCERTOS
Uma idéia que defendo bastante é a de você ser fotógrafo “pobre”, “fazedor de imagens”, geral. E fotografia de moda é uma das coisas que eu faço, mas eu gosto da estrutura um pouco de discos. Caetano é um bom exemplo pra mim, porque ele canta uma música em inglês, ele canta um samba, ele canta uma balada… eu gosto dessa estrutura, entendeu? Se eu fizer um livro quero que ele tenha esse caráter. Não gosto muito de esgotar um tema. Já fiz livros temáticos. Daqui pra frente não os farei. Eu quero poder ser fragmento.
Quando alguém pode se considerar fotógrafo? Quando usa a fotografia como forma de expressão. É muito difícil essa questão da relação com o público. Quando se estabelece uma relação entre o que você deseja e o que o outro está vendo. Tem que ter qualidade pra você passar a mensagem. Um painel todo borrado… você pode fazer isso depois. Picasso pintava maravilhosamente, sabia todas as técnicas da pintura e depois desconstruiu o processo dele… tem muita gente que já começa borrando, dizem “nossa, que sacada”, sei lá o quê… Tem um senso comum da “sacada” também, da coisa fácil, surrealismo barato de esquina. Isso tem de graça por aí…
Vou parafrasear David Bailey, “não há tantas fotos ruins quanto as fotos ruins de moda”. Isso me irrita muito. Porque foto ruim de reportagem é uma coisa, o cara não é um pretensioso. Já o fotógrafo de moda é pretensioso, sempre é. E tem que ser mesmo. E quando a pretensão é pífia… isso me irrita.
Eu gosto quando estabeleço uma relação com aquilo, quando a fotografia me emociona, me toca, me transporta, me faz viajar, me move do lugar, me deixa perplexo, mexe comigo. Tem muita coisa que me emociona e muito. Muitos livros, muitos fotógrafos, muitas exposições.
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1. Edson Gamma | 25 Setembro 2008 at 10:07
Olá Danielle,
Falta-nos material que de fato possamos acessar e que nos permita tatear tudo que há de mais importante no cerne da imagem produzida – o fotógrafo.
Repiso por diversas vezes, em situações coletivas e distintas, que o produto se faz daquilo que somos. Assim, o link que nos interessa entre obra e criador, é a sua motivação. O contexto e a percepção do micro ao macro em uma linguagem tangível, não extamente reveladora mas estimulante e pessoal.
Valeu pela partilha, muito bom trabalho.
Um grande abraço – Edson Gamma
2. Armando Vernaglia Jr | 26 Setembro 2008 at 9:57
Olá Danielle, parabéns pela iniciativa de postar aqui as entrevistas, é um conteúdo importante sobre nomes fundamentais da fotografia brasileira. Continue assim.
[]’s
Armando