Santa Tina: nem virgem, nem mártir

8 Maio 2008

Uma vida rodeada de mistérios. Como diz o escritor Paco Ignácio Taibo II, a italiana Tina Modotti (1896-1942) “viveu todas as histórias que fizeram História“. Foi estrela em Hollywood nos anos 20; foi amante e aluna do fotógrafo Edward Weston, o mesmo que a retratou na década de 20 e cuja fotografia foi comprada quatro décadas mais tarde pela cantora Madonna, que desembolsou a maior quantia já paga a uma fotografia até então; presenciou o assassinato de Julio Antonio Mella e sofreu o escândalo de ser acusada de sua morte; estava por perto quando do assassinato de Leon Trotsky; foi imortalizada nos famosos murais de Diego Rivera; influenciou Frida Kahlo; foi amiga de grandes nomes como Alexandra Kollontai, Maiakovski, Sandino, Sergei Einsenstein, Manuel Álvarez Bravo, Olga Benário e Luis Carlos Prestes; lutou na Guerra Civil Espanhola e serviu como espiã soviética na Berlim nazista; vivenciou o México pós-revolucionário; foi acusada de terrorismo, presa e expulsa do México; apoiou famílias de perseguidos trabalhando no Socorro Vermelho Internacional; teve muitos amantes e desiludiu muitos apaixonados; o epitáfio de seu túmulo foi escrito por, nada mais nada menos, Pablo Neruda. Sua própria morte, por infarto a bordo de um táxi em 1942, é polêmica.

Sua principal câmera, uma Graflex, foi comprada com a venda do exemplar de Ulysses (na Califórnia o livro era proibido e rendeu uma boa quantia) e da velha e pesada câmera Korona. Ao lado de Weston, explorou o sincretismo religioso na cultura mexicana. Ao final deste trabalho, ele estava orgulhoso de sua discípula. Ele dizia que era impossível afirmar quais imagens eram dele e quais eram de Tina. Na passagem por Moscou, Tina desiste da fotografia e se desfaz de sua câmera.

Nos idos de 1927, seu apartamento tornou-se um verdadeiro “salão da esquerda artística internacional”, praticamente a sede do partido. Após aliar-se ao partido comunista, a fotógrafa deixou de lado as cores para adotar um estilo mais reservado. Passou a vestir-se em tons de ocre e cinza e prendeu os cabelos negros e brilhantes em um discreto coque. Estilo discreto assim como deveria ser sua própria vida dali em diante, alternada entre realidade obscura e disfarces políticos. Suas fotografias também sofreram mudanças. O México recebeu outra leitura de Tina, a miséria daquele povo deixou de ser uma mera paisagem.

 

Leia mais…
Los fuegos, las sombras, el silencio… Pino Cacucci.
Modotti: uma mulher do século XX. Ángel de
la Calle.
Tina Modotti, a fragile life. Mildred Constantine.
Tina Modotti, between art and revolution. Letizia Argenteri.
Tina Modotti, photographs. Sarah Lowe.
Tinísima. Elena Poniatowska.
* Moby Dick (segundo Tina, o melhor livro que leu com Edward Weston, assim como Ulisses, de James Joyce e os poemas de Ezra Pound). 

Entry Filed under: fotografia, história. .

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